terça-feira, 1 de julho de 2014

Principios básicos do tiro





Para se conseguirem tiros precisos e rápidos é necessário aplicar algumas regras básicas ou fundamentais do tiro. Muitos atiradores culpam a arma dos maus resultados que obtêm mas, na maior parte dos casos, os maus resultados devem-se ao não cumprimento dos princípios fundamentais.


Segundo a Tactical Firearms Academy (TFA) existem 8 princípios básicos para um bom tiro. Vou enumerá-los em inglês por ser mais fácil para mim:


1- Mindset - mentalização.

O atirador tem que focar a mente no que está a tentar conseguir e acreditar que vai conseguir efetuar um tiro certeiro. Nem vale a pena tentar um disparo se acha que não vai conseguir acertar no alvo.



2- Stance - postura corporal.

O atirador deve assumir uma postura agressiva, em direção ao alvo, de frente para este com os joelhos fletidos e o tronco inclinado para a frente, para melhor controlar o recuo. Ao usar uma carabina, os cotovelos deverão apontar para baixo e não para fora. O peso do corpo deve incidir mais sobre a parte da frente do pé e menos sobre o calcanhar. Para se conseguir perceber bem qual o grau de inclinação do corpo para a frente, pode-se pedir a outra pessoa que nos empurre as ligeiramente as palmas das mãos. Devemos aumentar o ângulo de inclinação do corpo até conseguimos compensar a força da outra pessoa sem perdermos o equilíbrio. A TFA recomenda uma postura do tipo triângulo isósceles modificado para a pistola e para a carabina, em detrimento da postura tipo Weaver. Esta postura é mais natural, permite controlar melhor o recuo e o levantamento do cano e permite disparar em movimento.


         




No caso do tiro olímpico, estático,  de precisão, deve-se adotar uma postura mais fechada e rígida, para melhor estabilizar a arma.


Como alternativa às posições anteriores, em que o atirador se encontra de pé, temos posições em que o atirador se encontra ajoelhado e deitado.

Existem duas posições de ajoelhado. Uma com apenas um joelho no chão e outra com ambos os joelhos em baixo. Para chegar à posição em que apenas um dos jolhos apoia no não, deve-se dar um passo para a frente com o pé esquerdo e deixar cair o joelho direito para o chão. Deve-se pisar sempre terreno conhecido, por isso se dá o passo para a frente e não para trás. O joelho que fica elevado é sempre o do lado de apoio, o que, no meu caso é o lado esquerdo. Este joelho vai servir de apoio ao braço esquerdo. Aqui podemos escolher duas variantes. Ou apoiamos o braço à frente do joelho, ou atrás do mesmo. Por razões obvias, nunca se apoia o osso do cotovelo diretamente em cima do osso do joelho. Pessoalmente prefiro apoiar o cotovelo à frente do joelho, assumindo uma posição mais baixa e logo mais estável. Pode-se apoiar o rabo no calcanhar do pé direito. Com o tempo fiquei bastante fã desta posição.




Existe ainda outra alternativa à posição de um joelho no chão, que é a posição de dois joelhos no chão. Para se chegar a esta posição, deve-se dar um passo em frente com o pé esquerdo, deixamos cair o joelho direito para o chão e, em seguida, junta-se o joelho esquerdo ao direito. Esta posição é menos estável que a anterior, mas é muito mais versátil no caso de termos que disparar atrás de cobertura, disparando “à canhota”. Esta é a posição de ajoelhado que a TFA recomenda e usa. Para mim, que tenho pouca força, esta posição é pior que a anterior. Se estiver a disparar uma pistola, a questão do peso não se coloca e prefiro esta posição.






Para tiros de muita precisão ou a grande distância (a partir de 100 m), deve-se usar a posição de deitado. Para se atingir esta posição, devemos dar um passo em frente com o pé esquerdo, deixar cair o joelho direito para o chão, juntar o joelho esquerdo ao direito, colocar a palma da mão esquerda no chão e empurrar os pés para trás até as pernas ficarem completamente esticadas, com os pés afastados e os dedos dos pés a apontar para fora. É a palma da mão esquerda que define a localização do atirador no chão. Os cotovelos apoiam no chão. Pode-se apoiar o carregador do fuzil no chão para ajudar a controlar o peso deste, mas esta prática pode, e no meu caso, causou encravamentos, o que me levou a abandoná-la. 





3 - Grip - Empunhadura.

Forma como se empunha a arma. Um fuzil ou carabina, deve ser empunhada de forma segura, com os polegares a apontar para a frente e com, pelo menos 4 pontos de contacto: a mão esquerda, a mão direita, o ombro e a bochecha. Os braços devem ficar o mais junto ao tronco possível, com os cotovelos a apontar para baixo. No caso da pistola, apenas existem 2 pontos de contacto (as mãos). A mão dominante (direita), deve ser colocada o mais acima possível, enquanto que a mão de suporte deverá agarrar a arma ligeiramente inclinada para a frente,de forma a “trancar” o pulso, ficando com o indicador por baixo do guarda-mato e com o polegar inclinado para a frente. As mãos devem comprimir a arma como se esta estivesse segura num torno.









4 - Sight alignment - alinhamento das miras.

Isto refere-se ao alinhamento da mira da frente com a traseira. No caso das carabinas usadas no curso, que estavam dotadas de mira de ponto vermelho, este alinhamento não faz tanto sentido pois, desde que o atirador consiga ver o ponto vermelho sobre o alvo, os tiros irão atingi-lo. No caso da pistola deve-se alinhar o topo da mira da frente com o topo da mira traseira e deve ficar centrada na lateral. No caso dos fuzis, a mira da frente deve ficar no meio do anel traseiro. Em ambos os casos, deve-se focar a mira da frente, nunca a mira traseira ou o alvo.





5 - Sight picture - posição das miras em relação ao alvo. 

No caso de armas com miras reguláveis, a posição destas em relação ao alvo pode ter que ser diferente para que os projecteis atinjam o alvo. Passo a exemplificar: ambas as carabinas usadas no curso tinham miras de ponto vermelho afinadas para o tiro a 200 m. Isto quer dizer que se fizermos tiro a 200 ou a 50 m temos que colocar o ponto vermelho mesmo em cima do alvo. Caso se faça tiro a menos de 50 m, temos que colocar o ponto vermelho acima do ponto de impacto no alvo. Caso se faça tiro entre os 50 e os 200 m temos que colocar o ponto vermelho abaixo do ponto de impacto no alvo. Caso se faça tiro acima dos 200 m apontamos de novo acima do alvo. Mesmo com miras metálicas, caso estas estejam num eixo acima do cano, teremos sempre que compensar esta diferença para tiros a curta distância. As miras podem ser afinadas para o centro do alvo que se pretende atingir ou para a base do mesmo (posição das 6 horas), dependendo da preferência do utilizador. Pessoalmente prefiro o cento do alvo. Para tiro de competição com o centro do alvo preto, devem-se afinar as miras para a base do alvo, para aumentar o contraste e facilitar a pontaria.













6 - Trigger press and hold - pressão sobre o gatilho e retenção do mesmo.

O gatilho deve ser premido na pausa respiratória, ou seja, com os pulmões sem ar. O gatilho deve-se puxar, com a parte almofadada do dedo indicador, de forma suave e constante à retaguarda até que o disparo seja efectuado. O gatilho deve ser puxado para trás em linha reta. Qualquer movimento lateral do gatilho irá ter consequências negativas no tiro. O gatilho deverá ficar retido na sua posição final até o atirador estar preparado para efectuar novo disparo ou decidir que não irá disparar mais.





7- Trigger reset - rearmar o gatilho. 

Deixar o gatilho regressar à frente, apenas até ao ponto em que este fica rearmado numa arma semi-automatica. O atirador deve sentir o mecanismo do gatilho a ficar ativo e deve ouvir o respectivo som.




8- Breath - respiração.

Durante todo o processo o atirador não se pode esquecer de respirar. O disparo deve ser efetuado na pausa respiratória com os pulmões sem ar. Depois do disparo deve inalar.





Desde que aprendi e comecei a aplicar na prática estes princípios, deixei de culpar as armas pelos meus maus resultados e passei a olhar com orgulho para os meus alvos. Espero que vos ajudem também.


Em jeito de conclusão adiciono mais uma regra básica à lista já extensa lista:

9 - Practice, practice, practice - Praticar, praticar, praticar! A prática conduz à perfeição. Não serve de nada saber teoria sem a por em prática regularmente. Uma carabina de ar comprimido e uma pistola de CO2 são excelentes instrumentos de treino pois permitem por em prática todas as regras enumeradas anteriormente. Este tipo de armas é de venda livre a maiores de 18 anos e pode ser adquirido a preços bastante económicos. Estas armas de ar comprido têm a vantagem adicional serem pouco potentes, muito precisas e silenciosas, podendo ser disparadas em segurança, numa garagem ou noutro espaço fechado sem incomodar os vizinhos, permitindo treinos regulares sem custos exorbitantes e sem abandonar o conforto do lar. Caso possível devem-se treinar estas regras fundamentais, pelo menos, uma vez por semana.


Deixo-vos aqui alguns dos alvos de que mais me orgulho para demonstrar que, muito treino e formação, conseguem fazer milagres pelo mais medíocre dos atiradores. Claro que ainda hoje faço alvos de merda, mas também consigo de forma consistente fazer bons alvos como estes:



Alvo feito com uma Slavia 631 Lux no calibre 4,5 mm, usando chumbo Gamo Match, a 8,5 m de distância do alvo, disparando na posição de ajoelhado, sem apoio e sem mira óptica.










Cartas cortadas com uma Cometa Fenix 400 GPS, uma Gamo Whisper IGT e uma Norica Spider GRS, respetivamente. Todas as armas são de calibre 5,5 mm e foi usado chumbo Gamo Match nos 3 tiros. As cartas foram cortadas a uma distância de 8,5 m, na posição de ajoelhado, sem apoio. A comta Fenix tem instalada uma mira telecópica Hawke 4 x 32 AO. Os tiros efetuados com a Norica e com a Cometa foram feitos "à canhota"






Alvo feito com um revólver Smith & Wesson modelo 500, no calibre .500 S&W Magnum, a uma distância de 8 m, de pé, na posição isósceles modificado e sem apoio. No alvo estão 20 tiros.