sexta-feira, 18 de abril de 2014

Curso - Select Fire




Estes são os meus apontamentos relativos ao curso Select Fire (Tiro em rajada), que tirei em Miami em 2014. Trata-se daquilo que me ficou na memória, referente a esse dia.

Este texto está integrado no relato da viagem a Miami 2014. Quem já leu este relato não vai encontrar aqui informação adicional. Faço esta separação para facilitar a vida a quem gosta de tiro e de armas, mas não se interessa por viagens.



18-04-2014 - Miami - Clewiston - Miami

Voltei a acordar às 05:00h. Depois do banho e pequeno almoço, encontrei-me com o Andy, pontualmente às 06:15h. Depois da vergonha do último dia, não estava a prever um grande dia de formação. Durante a viagem perguntei-lhe se me deixaria chumbar no exame de pistola 2 outra vez no decorrer do dia, ao que me respondeu que me daria mais duas tentativas. A resposta não foi muito animadora, mas estou disposto a tentar de novo.

Depois da tradicional paragem do McDonalds para mijar e tomar o pequeno almoço, chegamos ao local pouco depois das 08:00h. É bom começar cedo. No dia anterior tínhamos começado tarde e terminado tardíssimo. Eu cheguei ao hotel depois das 21h e o Andy chegou a casa quase às 23h.

Para compensar a minha baixa moral, o Andy estava extraordináriamente bem disposto. Dizia piadas, oferecia-se para filmar e tirar fotografias, não perdeu quase tempo nenhum com regras de segurança nem com teoria desnecessária. Nunca o tinha visto assim.

Aprendi a desmontar a minha MP5 SD 2, procedimento que é facílimo de executar. O Andy explica que na versão SD da MP5, o silenciador é enrroscado por cima do cano e que, com os disparos se formam depósitos de carbono por cima da rosca, obrigado a que o silenciador deva que ser removido e limpo ao fim de 500 tiros ou, no máximo 1000 tiros, sob pena de ser impossível retirá-lo divido aos depósitos de carbono serem demasiados.





Com 4 carregadores completos dirigimo-nos para a linha dos 7 m para fazer uns tiros de aquecimento. Os carregadores têm a capacidade para 30 munições e são muito fáceis de carregar, tal como os do AR-15. Os carregadores devem se carregados até à sua capacidade máxima, devendo o utilizador garantir que ainda têm alguma folga para que se consigam trancar no lugar. Se o carregador levar 31 munições e ainda tiver uma ligeira folga, deve-se carregar desta maneira, pelo contrário se não tiver folga com 30, deve-se retirar uma. Eu carreguei sempre os meus com 30 e operaram sem problemas.

Colocamos o carregador na arma, batemos no manobrador que está trancado à retaguarda, para que este retire uma munição do carregador e a coloque na câmara e certificamo-nos que temos uma munição na câmara. Tal como no AR-15, a melhor forma de saber que temos uma munição na câmara é ver de que lado está a munição no topo do carregador antes de o introduzir na arma, levar o obturador à frente, retirar o carregador e verificar que a munição no topo se encontra do outro lado. Demos sempre empurrar o carregador para dentro do recetáculo e puxá-lo em seguida para termos a certeza de que trancou no seu lugar e não vai cair.

Tal como a AR-15, também a MP5, a curta distância dispara abaixo do sítio onde se aponta. Apenas a 25 m o ponto de impacto é igual ao local onde estão as miras. Em modo semi-automático fazemos vários tiros sobre um alvo de 16 bolas igual ao do dia anterior. É facílimo acertar onde se quer com a MP5. As miras metálicas são fantásticas.

As posições de disparo e de “pronto” são iguais às aprendidas no curso de Tactical Carbine 1. As técnicas básicas de disparo, também.

Como o nome do curso de hoje é “Select Fire” ou, como eu o preferir chamar, “Full Auto”, chega agora a vez de rodar o seletor de tiro para o modo de rajada ou automático. Que a diversão comece!

O modo automático deve ser usado sempre que a distância ao alvo seja igual ou inferior a 25 metros e o atirador tem que ser capaz de conseguir disparar sequências de 1, 2, 3 ou 4 tiros, neste modo, de forma consistente. Para além dos 25 metros recomenda-se o modo semi-automático para melhor controlo do gatilho.

Para se conseguir disparar apenas um tiro no modo automático, temos que ir contra tudo o que aprendemos antes e fazer algo que sempre nos disseram para não fazer, dar uma gatilhada. Básicamente a técnica consiste em “esbofetear” o gatilho o mais rápidamente possível. A técnica domina-se ao final de pouco tempo. Até um atrasado mental desajeitado como eu a consegue dominar. Em poucos minutos os 4 carregadores ficam vazios e é necessário reabastecê-los.

O obturador da MP5 não fica trancado na posição traseira no último disparo. Isto é uma vantagem e uma desvantagem. A desvantagem prende-se com o facto de não conseguirmos distinguir entre um encravamento e o fim das munições. A vantagem disto é que tratamos tudo como se fosse um encravamento e executamos sempre o mesmo procedimento, melhorando a consistência e o tempo para executar as operações.

Para resolver o encravamento de falha ao dispar, puxa-se o manobrador atrás e tranca-se, retira-se o carregador e verifica-se se este tem munições, em caso de necessidade deita-se o carregador vazio para o chão, coloca-se um novo na arma e destranca-se o manobrador para que este regresse à frente alimentando uma munição na câmara. A MP5 trabalha com o obturador fechado, ao contrário da UZI.

Caso se trate de uma dupla alimentação, o procedimento é quase igual, sendo apenas necessário operar várias vezes o manobrador antes de voltar a colocar o carregador no recetáculo. Este passo adicional é necessário para garantir que o casquilo que está a provocar a dupla alimentação é extraído da câmara. Devido ao facto do cano estão tão baixo na caixa, é muito difícil percebermos que tipo de avaria temos pois é difícil vermos a câmara com clareza.





Praticamos um pouco mais os disparos de apenas um único tiro e passamos em seguida às rajadas de 2 tiros. Estas conseguem-se dando uma gatilhada mais longa e são também bastante fáceis de conseguir. Na minha opinião são mais fáceis de fazer do que disparar apenas um único tiro em modo automático.

Progredimos para as rajadas de 3 e de 4 tiros. Aqui já podemos voltar a espremer o gatilho deixado de  dar gatilhadas. Para mim estas foram as mais difíceis de dominar. Muitas vezes queria disparar 3 tiros e saíam 4 ou vice versa. Não me pareceu grave e o Andy não me chateou por causa disso. 
Evaporam-se mais 4 carregadores em poucos minutos. 120 munições! Reabasteço e recomeçamos. Pela primeira vez durante o dia pomos protetores auriculares. Vamos praticar a resolução de encravamentos com transição para a pistola. Até 15 metros do alvo, sempre que o fuzil, carabina ou sub-metralhadora encravarem, devemos transitar para a pistola, disparar sobre o alvo e apenas depois do alvo ter sido atingido se deve desencravar a arma.

A minha forma preferida para reter a MP5 enquanto uso a pistola é deixá-la pendurada na bandoleira. Isto deixa-me as 2 mãos livres para usar a pistola. 

Praticamos também os disparos com o lado esquerdo. Uma vez mais comprova-se que disparo tão bem ou melhor com a mão esquerda. Não perdemos muito tempo com isto porque eu já o tinha aprendido no ano passado ainda dominava a coisa.

Depois de já ter disparado mais de 300 munições constato que a MP5, é extremamente precisa e fácil de controlar mesmo disparada em automático. Consegui colocar, de forma consistente, rajadas de 3 ou 4 tiros numa bola com o diâmetro de uma bola de ténis a 7 m. Em 2012, em Boulder City, tinha ficado com a sensação que a MP5 era incontrolável em rajada. Agora percebo que era apenas eu que ainda era mais nabo do que sou hoje.

Nova pausa para recarregar e vejo que já não consigo encher os 4 carregadores com o que me resta das 1100 munições que comprei para os 2 cursos e ainda passam poucos minutos das 10:00h da manhã. O Andy  já previra isto e tinha trazido mais munições que me vai passando à medida das necessidades.

Passamos agora ao disparo em movimento. Os movimentos para trás, para a frente, para o lado e o L tático. Já os tinha aprendido e praticado nos cursos anteriores e não perdemos muito tempo com eles.

Chega a vez das reações ou “pivots and turns” que se traduzem por rotações e voltas. Trata-se de reagir a um atacante que não está na nossa linha de vista direta. Também já tinha aprendido isto no curso de Carabina 1 pelo que se tratou apenas de uma revisão rápida.

Depois de reabastecer de novo, revimos as várias posições de tiro. A 100 metros fizemos tiro de pé, ajoelhados e deitados. Consegui acertar num alvo metálico minúsculo a 100 m, de pé e sem apoio. Estava a atirar tão bem quando o Andy, com a “desvantagem” de estar a usar as miras metálicas da MP5 enquanto que ele tinha uma mira de ponto vermelho montada na dele. Aproveitei para gozar um pouco com ele por causa disto. Eu estava “on fire”. Estava num daqueles raros dias em que até pareço um bom atirador. Será que é desta que consigo passar a merda do exame de pistola 2? O Andy já me disse que apenas me ia deixar fazer o exame de pistola. Eu acho que ele tinha medo que eu passasse no de Select Fire.

Este é o curso que o Andy mais gosta de ensinar e isso notou-se pela satisfação com que fazia as coisas, pelo sentido de humor, pelo facto de estar sempre a pedir para filmar e tirar fotografias, tanto com o telefone dele e com o meu. Nem sequer ficou chateado por eu ter gozado com ele.

Aproveitei para lhe pedir para experimentar a MP5 dele para dar uns tiros a 100 m. Ele estava a usar uma MP5 A4 também com supressor de ruído. Este modelo, mais recente,  tem uma posição extra no seletor de tiro que faz rajadas de apenas 2 tiros. Achei o gatilho pior. Trata-se de um gatilho de um único estágio ao contrário do da SD que é de 2 estágios. Tirando isso não notei grandes diferenças.

Por último faltava apenas fazer uns disparo a partir de cobertura, coisa que já tinha aprendido nos cursos anteriores. Quando fiquei sem munições parámos para uma almoço antecipado. Pouco passava do meio dia e já tinha gasto mais de 700 munições. 

A matéria ficou terminada da parte da manhã. Chegava agora a hora do famigerado exame. A minha auto-confiança estava em alta, mas isto também era verdade nos outros dias. Sempre tive a mania que era um atirador decente de pistola. Gostava mesmo de receber o certificado do curso.

Cá vai disto! 42 munições nos carregadores, 5 no bolso, começou o exame. Concentração ao máximo. A primeira parte do exame, correu maravilhosamente. Todos os tiros rápidos no alvo e dentro do tempo. Agora vamos aos tiros lentos a 25 m. O Andy que estava particularmente bem disposto foi contando alto os 20 s o que me ajudou bastante a gerir o tempo. Falhei 2 tiros. Só faltavam os tiros na cabeça a 15 m e onde apenas falhei 1. Finalmente terminei o filho-da-puta do exame com 39 tiros num mínimo de 34. Costuma-se dizer que “à terceira é de vez”, mas no meu caso foi à quinta. Claro que vou dizer a toda a gente que passei no exame a primeira…

Aproveitei o bom humor do Andy para o convencer a deixar-me fazer o exame de “Select Fire”. Este acedeu, de forma algo relutante. Ele não tinha mesmo vontade nenhuma de me dar o certificado de Select Fire.





O exame é muito parecido com o de Carabina 1, apenas as distâncias são mais curtas. Começamos com 42 munições, passamos com 36 tiros nas zonas A e B do alvo. Começamos o curso a correr dos 25 para os 50 m. A 50 m fazemos várias sequências de tiro ajoelhados e deitados. O Andy não se deu ao trabalho de me dizer quanto tempo eu tinha para fazer os tiros e eu não me dei ao trabalho de perguntar.

Aproximamo-nos do alvo para mais umas sequencias de tiro de pé, uma dessas sequências com um mudança de carregador. A 10 m temos que fazer 2 sequencias de 2 tiros em rajada e de 1 tiro em rajada. Não sei como ficam a faltar-me 3 tiros para completar o exame. O Andy diz que eu fiz rajadas de 3 tiros quando devia ter feito de 2. Eu acho que fiz de tudo certo, mas não tenho a certeza.

Volto a colocar 42 munições em carregadores e lá vou eu à segunda tentativa. Desta vez faço tudo como deve ser. Consigo 37 tiros no alvo. O Andy conta os tiros no alvo e fora desde 2 vezes para ter mesmo a certeza que eu tinha passado. Nunca o vi a verificar os resultados de um teste de forma tão meticulosa. Este foi para compensar a vergonha do dia anterior!

Aproveito o facto de estar a atirar tão bem para pedir ao Andy para fazer um “buraco rasgado” com a Beretta 92 G que ele está a usar. Mais uma vez, a 5 m, resultados maravilhásticos, 9 ou 10 tiros num único buraco. O Andy dispara a seguir e os tiros ficam ligeiramente mais afastados que os meus. Aproveito para gozar mais um pouco. Gosto do gatilho da Beretta, mesmo em ação dupla e gosto principalmente dos resultados que consegui com ela. Sou o máior! Pareço o Rambo. Até começo sentir os mesmos problemas na fala que o Stalone manifesta.

Pouco passa das 14:00h. Não há mais matéria para dar nem exames para fazer. O Andy prepara um percurso de combate, uma espécie de uma etapa de competição, em que tenho alvos metálicos ativos (que caem ou tombam depois de levarem vários tiros) e um “tomador de reféns”, de papel que se esconde atrás de 2 reféns. Este tomador de reféns deve levar um tiro na cabeça, em movimento e antes de  chegar à linha dos 7 metros. Cagativo... O Andy dá-me 2 minutos para completar o percurso, mas eu peço-lhe 3. 

O exercício é fantástico. Pareço um personagem de um filme de ação. Ainda melhor que o Rambo, lembro-me de uma punch line do filme Die Hard 1 escrita na camisola de um terrorista morto: “Now I have a machine gun, ho-ho-ho”. Pareço o John Mclane! Completo todo o percurso num minuto (1:06 m), mas além de eliminar o tomador de reféns, também dou um tiro na cabeça do refém. Um tempo espetacular para um nabo como eu! Mesmo acertando no refém, fico muito satisfeito com o resultado. Parado não teria falhado tiro nenhum, mesmo sob stress, e com a respiração ofegante depois de me ter fartado de correr.

Como ainda tenho algumas munições na MP5, decido fazer o percurso de novo. Sei que não vou ter munições suficientes para todo o percurso mas vou aproveitar para transitar para a pistola. Só tenho que tentar fazer com que as munições cheguem para os tiros mais longos. Gasto demasiadas munições a fazer cair os 2 alvos ativos, segundo o Andy eu devia ter disparado sobre eles em rajada e não em semi-automático. Fiz ambos os percursos em semi-automático para poupar munições e falhei completamente o objetivo. As munições da MP5 acabam-se na linha dos 25 m. Transito para a Glock 18 e continuo a prova. Demoro um pouco mais de tempo a atingir cada alvo e os resultados dos últimos tiros na cabeça são desastrosos, com ambos os reféns atingidos. Termino a prova em 1:19 m, com um ego do tamanho do planeta.

Peço ao Andy para me filmar enquanto faço alguns exercícios de combate no chão. Estes foram dos meus favoritos no dia anterior. Já estou a ver, de novo, a cara dos funcionários do hotel quando me virem a passar pelo lobby todo sujo de terra, pó e palhas secas, como se tivesse sido arrastado pelo chão atrás de um carro. Metade da diversão deste exercício está na cara dos funcionários do hotel. O que vale é que não tenho intenções de lá ficar hospedado no futuro.

Ainda me sobraram munições na Glock 18. Claro que isto exige uns disparos em rajada para “limpar” os carregadores. Tal como no ano passado, não consigo controlar a Glock 18 em modo automático. Mesmo executando a técnica na perfeição (acho eu), não tenho força suficiente para compensar o levantamento do cano. O Andy, apesar de conseguir resultados decentes com ela, diz que não passa de um brinquedo, e é totalmente inútil em modo de rajada. Para mim é completamente incontrolável e não consigo acertar num alvo mesmo a curta distância. Apenas consigo fazer “Spray and Pray”. Apesar disto, é sempre divertido disparar uma arma em modo de rajada, principalmente uma pistola.

Pouco passa das 15:00h e o nosso dia de treino já esta terminado. Gastei mais de 1100 munições, em pouco mais de uma manhã! O que é que podia ter corrido melhor? Neste momento não me ocorre nada! Foi o melhor dia de formação que tive até hoje, não só pelo meu desempenho estar em alta, mas também pela MP5 que se revelou uma verdadeira surpresa. Da primeira vez que disparei uma MP5 tinha ficado bastante desiludido, mas depois deste dia passou a ser uma das minhas armas favoritas, de sempre. Também ajudou o facto do Andy adorar este curso e se esforçar para exceder expectativas.

Não me posso esquecer de agradecer ao Boyzes por me ter obrigado a escolher fazer este curso com a MP5 e não com a UMP, como cheguei a ponderar. Para mim a lógica era simples, a MP5 é uma excelente arma, com provas dadas nos mais variados cenários e de qualidade indicutível, mas eu não tinha ficado muito impressionado com ela quando a tinha disparado em Boulder City. Para além disto, a UMP é mais nova, de polímero, tecnológicamente mais evoluída. O Andy tem 2 UMPs disponíveis para gajos como eu (que não sabem nada e querem experimentar as últimas novidades), mas detesta a arma. Diz que é incontrolável no tiro de rajada, tanto no calibre .45 ACP como no .40 S&W e até mesmo no 9 mm. Isto deve-se ao pouco peso da arma. O mérito de eu ter adorado este curso pertence todo ao Boyzes. Se tivesse escolhido a UMP não teria aproveitado tanto, nem provavelmente, passado no exame.

Como não temos que apanhar casquilhos do chão, pomo-nos a caminho de Miami onde chegamos pouco depois das 17h e muito antes do resto da família que tinha ido passear a Key West. Pelo caminho o Andy diz que me vai enviar os certificados por correio e a fatura correspondente à munição extra. Tive que lhe explicar que achava justo não pagar mais pela munição extra devido ao facto de ter pago formação privada e ele ter levado um aluno extra no dia anterior. Para além disto, o dia de hoje tinha tido menos horas de formação. Ele não gostou muito da explicação, mas até agora ainda não chegou fatura nenhuma para pagar.

Já só penso no regresso, para o próximo ano. Isto é mais viciante que droga!







The end.


E lembrem-se, não se deixem apanhar.