sábado, 14 de julho de 2012

Las Vegas


EUA – 14-07-2012 a 22-07-2012

Então não é que 2 dias depois de virmos da Tailândia, a Vaselina descobriu que estava grávida? A minha primeira reação logo que soube da novidade foi - ainda temos que viajar uma vez mais! Depois de analisarmos as nossas opções optei pelos EUA, por Las Vegas. E porquê, perguntam os leitores. Porque eu queria ir à Disneylandia antes de me reformar disto das viagens. O leitor mais atento dirá que a Disneylandia fica em Orlando, na Flórida. E tem razão se pensar naquela Disneylandia dedicada às personagens dos filmes de animação da Disney. Mas não é a essa que queremos ir...

Para nós... Quer dizer.... Para mim, a Disneylandia é um sitio cheio de armas, dos mais variados tipos, tamanhos e calibres. Esta é uma viagem bélica e Las Vegas foi escolhida por ficar no estado do Nevada que foi reconhecido há pouco tempo como o estado mais pró armas de todos os EUA. Optei por Las Vegas também pelo facto de ter outras atrações, para que a Vaselina não apanhasse uma seca ainda maior.

Se não gostas de armas, não continues a ler.





Dia 0 - 14-07-2012 - Lisboa - Philadelphia - Las Vegas

Acordámos às 05:30h para chegarmos ao aeroporto com a máxima antecedência possível pois não tínhamos conseguido fazer o check-in online. Os filhos da puta da US Airways atribuíram-nos lugares aleatórios no avião e ao tentar fazer o check-in online não conseguimos alterar os lugares para ficarmos juntos.

Na fila para o check-in tivemos o nosso primeiro interrogatório, onde nos fizeram perguntas inteligentíssimas tais como se transportávamos armas ou se alguém tinha mexido na nossa bagagem. Verificaram os nossos passaportes num portátil e, à despedida recomendaram-nos que não aceitássemos nada de estranhos. Sim, mãezinha! Ainda não pisámos solo americano e já somos tratados como atrasados mentais...

Ao chegar ao balcão de check-in disseram-nos que já tínhamos feito o check-in online e que não nos conseguiam trocar os lugares. Conseguiram sim juntar-nos no voo de Philadelphia para Las Vegas. Muito mau! Passámos pela segurança onde aproveitaram para apalpar a Vaselina e ficamos na zona da restauração a fazer tempo e a comer o lanche que tínhamos trazido de casa. Quando nos fartamos de estar sentados dirigimo-nos para o controlo de passaportes e posteriormente para a sala de embarque.






À entrada da sala de embarque, nova dose de perguntas parvas. Onde é que a nossa bagagem tinha estado desde que passámos o controlo de segurança? Onde é que vos parece? Ainda nos perguntaram se tínhamos aceite coisas de estranhos. Foda-se! A Vaselina voltou a ser chateada e ainda teve que mostrar o conteúdo da sua mala de mão a uma funcionaria. Ela vinha vestida de azul claro e branco e, a minha teoria é que neste aeroporto não gostam de estrunfes.

Daqui para a frente o processo de embarque foi completamente normal. O ambiente a bordo do avião, enquanto esperávamos pelos passageiros que ainda faltavam embarcar era o que eu classifico de uma bandalheira total. Parecia que estávamos num avião de uma companhia aérea da América latina. Como se a desorganização não bastasse a tripulação já estava na terceira idade e já se devia ter reformado há 10 anos ou mais. A tripulação da TAP, que tem fama de idosa, parece jovem se comparada com esta.

Ficámos sentados na fila que separa a classe turística da executiva. Daqui podíamos observar um velhote a recolher os pedidos de refeição dos passageiros da primeira classe. Com a sua gravata muito curta parecia uma personagem de um filme dos irmãos Marx. O tripulante mais jovem a bordo devia ter cerca de 60 anos e passeava calmamente pelo corredor sorvendo café de um grande copo de papel. Só espero que o piloto não tenha Alzeimer nem um AVC. A tripulação é velha, mas muito simpática. Ao escrever estas linhas estamos a sobrevoar o atlântico em direção de Philadelphia ou piladelpia se preferirem.




O Boeing 757 já tem dificuldade em disfarçar o peso dos anos. O reservatório debaixo da sanita é visível a olho nu, tal como os das casas de banho de plástico nos concertos. Poucas horas depois do inicio do voo deixa de haver água na torneira do lavatório. A tripulação coloca lá uma caixa de toalhetes perfumados, mas não é a mesma coisa. Pelo menos, os motores e a fuselagem parecem estar a funcionar sem problemas. A única vantagem de viajar numa companhia americana é que os copos das bebidas são grandes, não tendo nada a ver com as miniaturas que nos dão a bordo de aviões de outras companhias.

No aeroporto, o primeiro checkpoint é o da imigração. Aqui esperamos cerca de 40 minutos pela nossa vez. Para além do tradicional controlo de passaporte, tiraram-nos uma foto e digitalizaram as impressões digitais de todos os nossos dedos. Ainda pensei que também iam digitalizar as dos dedos dos pés mas não chegaram a isso. Ouvimos outros agentes a perguntar aos turistas quanto dinheiro traziam mas a nós não perguntaram isso.

Depois da imigração, fomos forçados a recolher a bagagem para entregarmos a declaração alfandegária. Já nos tinham feito passar por muita coisa, mas nunca por isto. Na alfândega não nos ligaram nenhuma e voltámos a despachar as bagagens pouco tempo depois.




Voltámos a apanhar mais 40 minutos de fila enquanto esperávamos por mais um controlo. Não conseguimos perceber para que é que este servia, mal olharam para o passaporte e cartão de embarque antes de nos mandarem seguir para o controlo de segurança, o quarto desde que entrámos na merda do aeroporto. Foda-se! E que desorganização. Tudo demora uma eternidade. E já passava da hora de partida do nosso voo. O que vale é que um simpático agente nos informou que, devido às filas, os voos estavam todos atrasados. Ainda gostava de saber para que é que serviu este controlo. Se já tínhamos sido controlados em Portugal e não tínhamos saído do aeroporto, era impossível termos adquirido objetos perigosos. Eu acho que foi só para nos obrigar a descalçar e a deitar as garrafas de líquidos para o lixo, para fomentar a economia. Pelo menos, não nos obrigaram a passar pela máquina que nos filma despidos nem nos apalparam.

Depois deste 4º e ultimo controlo foi correr até à porta de embarque. Correr não, que a Vaselina não corre desde que engravidou. Foi andar depressa, mas deu perfeitamente para apanhar o avião e ainda esperar uns minutos por alguns passageiros mais atrasados.

Este avião, um Airbus A320 da US Airways é mais moderno que o anterior e a tripulação também é menos velha que a anterior. Apesar de, mais uma vez não termos lugares juntos, conseguimos trocar e ficar juntos e à janela, uma vez mais, na fila que separa a classe turística da executiva. Ao escrever estas linhas estamos a sobrevoar os EUA em direção a Las Vegas enquanto desesperamos pela comida. O serviço é muito mau e lento. Que companhia de merda!

Passado bastante tempo percebemos que apenas havia bebidas gratuitas, a comida teria que ser paga e bem paga. Isto é quase tão mau como a Ryanair. Foda-se! Comprámos duas caixas com sandes frutas e outras merdas e comemo-las como se não houvesse amanhã.



Após a aterragem, esperámos uma eternidade pelas malas enquanto éramos bombardeados com publicidade às atrações de Las Vegas, a tours e a espetáculos A Vaselina, cansada, deixou-me a recolher a bagagem e foi-se sentar num banco ali perto. Depois de recolhidas as malas, começámos a procura de alguém com um sinal com o nosso nome, alguém esse que não existia. Tivemos que nos dirigir a um quiosque da companhia responsável pelo nosso transfer, que nos apontou um sitio onde esperar o autocarro que chegou 10 minutos depois.

A viagem até ao Trump International Hotel (*****) durou menos de 15 minutos. Antes de se despedir, o motorista deu-nos um cartão com um número para onde deveríamos ligar no dia seguinte para reservar o transfer de regresso ao aeroporto, no ultimo dia. Despedimo-nos sem dar gorjeta. Fizemos o check-in, onde me bloquearam quase $500 como garantia para incidentes e subimos para o quarto, no 27º piso. Ninguém se ofereceu para nos ajudar com as malas, coisa que nós agradecemos pois poupámos mais uma gorjeta. Encomendámos comida via serviço de quartos, jantámos e fomos dormir como porcos. Há quase 24h que não dormíamos, nem sequer houve energia para sexo.




Dia 1 - 15-07-2012  - Las Vegas

Acordámos cedo, despachámo-nos lentamente e saímos para comprar comida enquanto toda a cidade ainda dormia. Usando as indicações fornecidas pelo Jean Marie, que aqui tinha estado 2 anos antes, encontrámos um Wallgreen's, onde nos abastecemos de pão, água, bolachas e iogurtes. Todos os quartos do hotel têm uma kitchenet com fogão, micro ondas, torradeira, lavatório e frigorífico Estão também disponíveis tachos, panelas e talheres para uso dos hóspedes. Por mais inverosímil que isto pareça é mesmo verdade, um hotel de 5 estrelas com cozinha no quarto.

Banqueteámo-nos com as coisas que tínhamos comprado e voltámos a sair. O Trump oferece shuttles gratuitos, de 10 em 10 minutos, para o Wynn e para o Caesar's Palace. Apanhámos o que se destinava ao Caesar's. O motorista, muito simpático, foi falando da cidade e dos casinos pelo caminho. Sugeriu que visitássemos a exposição de automóveis clássicos que está no Imperial Palace, mas que não perdêssemos tempo com o casino que é uma espelunca.

Passeámos pelas ruas do casino que têm reproduções de alguns monumentos de Roma, tais como a Fontana di Trevi. Tudo é lindo, de bom gosto e, acima de tudo, de uma grandiosidade impressionante. Por todo o lado se veem lojas de luxo, muitas delas com clientes lá dentro e tudo. Desde logo se percebe que há aqui gente com muito poder de compra.



Não vimos um único sítio onde se comesse a preços decentes pelo que resolvemos sair. Atravessámos a Strip e entrámos no Flamingo onde encontrámos uma zona de comida barata do estilo fast food ou junk food, como preferirem. Comemos umas sandes com batatas fritas e continuamos a passear pela rua. Está calor, mas muito menos do que costuma estar nesta época do ano. Houve inclusive períodos de chuva nos últimos dias. Existem inúmeras pessoas nos passeios a distribuir panfletos de serviços de prostituição. O Nevada é o único estado do país onde a prostituição é legal.

Voltamos a atravessar a Strip para ver as fontes do Bellagio. Depois do espetáculo das fontes, entrámos no casino para descansar um pouco e arrefecer com o ar condicionado. Sentámo-nos em frente a umas slot machines a descansar e aproveitamos para perder $3. Depois de devidamente descansados, resolvemos ir a uma carreira de tiro para ir atirar, afinal era este o objetivo da viagem. Passamos pelo lobby que era magnifico e saímos para apanhar um táxi. O Bellagio é muito mais luxuoso que o Trump e está melhor situado,  mas o Trump é muito mais calmo devido ao facto de ser o único hotel em Vegas que não tem casino. Ficámos muito satisfeitos com a nossa escolha.

Ao entrar no táxi, disse ao motorista que queria ir à Machine Gun Vegas, mas o FDP levou-nos a outro lado, à Guns and Ammo Garage. Já que ali estávamos resolvi aproveitar. A Vaselina ficou à minha espera sentada numa mesa na loja, enquanto que eu me dirigi à parte da carreira de tiro.




Após perceber que não havia nenhum revolver em .357 Magnum, escolhi um Smith & Wesson modelo 29, no calibre .44 Magnum. Preenchi o formulário a dizer que era bom da cabeça e que não tinha tendências suicidas e esperei cerca de 20 minutos por um sitio vazio na carreira de tiro. Quando chegou a minha vez, deram-me uns protetores auriculares, e óculos. O oficial de tiro apresentou-se, explicou-me as medidas de segurança e preparámo-nos para entrar.

Todas as carreiras de tiro em interiores, como esta, têm um sistema de portas duplas para que o ruído dos disparos nunca chegue à sala de espera. Coloco os óculos e protetores auriculares e sigo o oficial para a carreira. Lá dentro, peço-lhe para me filmar, mas ele diz que não pode porque tem que ter as mãos livres para a eventualidade de eu fazer merda.

O gajo nem me deixa carregar as munições no tambor. Pelo menos deixou-me efetuar dois disparos em seco, um em ação simples e outro em ação dupla para perceber como funcionava o gatilho. Depois das 5 enormes munições estarem carregadas e da arma estar pronta a disparar, agarro-me com unhas e dentes aquela que, até há poucos anos atrás era a arma curta de produção mais potente do mundo e que se tornou célebre no filme Dirty Harry, com o Clint Eastwood.

Puxo o cão atrás e aperto o gatilho, preparado para o pior. O coice é grande, mas até um gajo lingrinhas como eu o consegue gerir. Disparo mais 3 tiros em ação simples e disparo o último em ação dupla. Coloquei todos os tiros nos dois anéis centrais do alvo, o que não é muito mau, mas atendendo ao facto do alvo estar a 7m e do revólver ter um cano de 8" e um gatilho muito bom, não me deixou muito satisfeito. Recolhi dois casquilhos vazios e dirigi-me para a saída com um sorriso de orelha a orelha. Se me querem ver feliz deêm-me uma arma para disparar, seja ela grande ou pequena.





Entretanto, a Vaselina tinha percebido que havia um shuttle gratuito à disposição dos clientes da loja. Esperámos por este shuttle e pedimos-lhe para nos deixar no Imperial Palace para a exposição automóvel. Pelo caminho perguntei ao condutor do shuttle se achava que um lingrinhas como eu era capaz de disparar um Smith & Wesson (S&W) no calibre .500 S&W Magnum, ao que ele respondeu que sim, que até o conseguia disparar com apenas uma mão. Antes de nos deixar perto do Imperial Palace o Dave, ainda nos ofereceu uma garrafa de água. É muito simpático da parte da loja o facto de terem este shuttle que nos vai buscar onde quisermos e nos deixa num destino à nossa escolha.

O Imperial Palace é mesmo uma espelunca. Pelo que vimos não o recomendamos para lá ficar hospedado ou mesmo para jogar. No balcão junto à entrada deram-nos bilhetes gratuitos para a exposição e subimos até ao 5º piso.

A exposição é muito interessante, com dezenas de automóveis clássicos, muitos deles europeus, tais como Rolls Royce, Jaguar, Porsche, etc. Quase todos os automóveis que aqui estão encontram-se para venda, muitos deles tendo o preço junto à placa com a descrição. Não vale a pena falar dos automóveis que vimos pois estes estão constantemente a mudar devido às vendas. A Vaselina sentou-se num mesinha e deixou-me ver a exposição à vontade.

Apenas quero destacar o Ford Mustang GT 500 que participou no filme "Gone in 60 Seconds" com a Angelina Jolie e o Nicholas Cage. Sim, era mesmo a original Eleanor! Infelizmente não tive tempo para ver toda a exposição. Os americanos não brincam com os horários de fecho e, muito educadamente, correram connosco como cães raivosos.




Depois de expulsos do Imperial Palace, entrámos na Sugar Factory para comer um gelado ao som de música frenética em altos berros. Depois do gelado entrámos no hotel / casino, Paris e resolvemos subir à torre Eiffel. Já tínhamos estado na original mas, a original, não tem visita sobre Las Vegas à noite, nem sobre o espetáculo das fontes no Bellagio. Ainda tivemos que esperar cerca de 20 minutos para entrar no elevador.

A vista lá de cima é magnifica, vale a pena só por causa das fontes do Bellagio. Daqui podemos observar toda a megalomania de hotéis iluminados de forma extravagante. Ficámos lá em cima cerca de 30 minutos até nos fartarmos de levar encontrões e cotoveladas. Descemos e fomos comprar uns iogurtes com aspeto delicioso numa loja do Paris.

O dia já ia longo e eu, no dia seguinte, teria que me levantar muito cedo, portanto resolvemos apanhar, de novo, o shuttle gratuito para o Trump. Depois de nos esforçamos bastante lá conseguimos encontrar o caminho para a garagem do Caesar's onde esperámos um pouco pelo shuttle.

No hotel, depois de comer os iogurtes ainda conseguimos arranjar energia para uma sessão de motocross alentejano. Dormimos que nem suínos devido ao cansaço.




Dia 2 - 16-07-2012 - Las Vegas

Levantei-me às 06:00h para me preparar para o grande dia. Tinha dormido mal devido à ansiedade. Tomei duche e improvisei um pequeno-almoço de iogurte, café e torradas. Despedi-me da Vaselina, que ficou a dormir e desci para o lobby onde me sentei à espera que me viessem buscar. Não fazia a mínima ideia como era a pessoa que me vinha buscar, só sabia que se chamava John Kern.

Estava eu confortavelmente sentado à espera de um gajo numa carrinha pick-up ou num jipe enorme quando um funcionário do hotel me perguntou o nome e me disse que estava alguém à minha espera. No lugar de um gajo numa carrinha enorme estava uma gaja loura num carro minúsculo. Vim a descobrir que era a mulher do meu instrutor.

Apresentámo-nos, entrei no carro e, ainda antes de seguirmos viagem pediu-me os $1000 que ainda faltavam pagar. No carro minúsculo, estava também a filha de 7 anos do casal que dormiu a viagem toda e uma dobermann enorme, de nome Uzi que passou a viagem inteira a lamber-me e a meter-me o nariz molhado nas orelhas. Pelo caminho ainda nos perdemos uma vez e parámos duas para comprar café para o John. A Mirelle é uma condutora insegura.

A carreira de tiro onde o curso ia decorrer fica mesmo no limite exterior de Las Vegas. Para chegar ao “Desert Sportmans Rifle Club”, basta seguir a Charleston Boulevard até ao fim da cidade. Pouco depois de terminarem as casas começa a carreira de tiro ao ar livre. Como visitante a Mirelle pagou $5 pela minha entrada e procuramos o sítio onde o John nos esperava. Ele escolheu a carreira mais remota de todo o complexo (Assinalada na imagem com uma seta). Neste clube não se podem dar aulas e foi for causa disto que ficamos tão afastados. Fui instruído para dizer que éramos amigos se alguém me perguntasse o que se passava ali.



Ao chegar à carreira 10, conheci o John Kern que já tinha preparado tudo para dar inicio à aula. Já tinha os alvos rotativos instalados, tinha uma tenda para dar sombra, uma geleira com snacks, águas e, claro, as armas e acessórios. A Mirelle saiu pouco tempo depois de me deixar. Depois das apresentações, o John colocou-me um cinto tático com um porta carregadores e o coldre. Apesar de eu ter escolhido uma Glock ele recomendou que experimentasse a Springfield XD-9 Service Model, com cano de 4'', em 9mm e eu aceitei. Colocou-me a arma no coldre imediatamente a seguir. Deu-me também uns protetores auriculares ativos, que têm um microfone que amplifica o som da voz e bloqueia as frequências dos tiros. Uma obra de engenharia e eletrónica magnífica. Tenho que arranjar uns destes.

Sentámo-nos um pouco à sombra enquanto eu enchia os 4 carregadores de 16 munições e ele fazia a introdução ao curso e falava das 4 regras básicas de segurança que eu já conhecia mas pela ordem errada. Esta é a ordem certa:


1- Trata todas as armas como se estivessem carregadas.

2- Nunca apontes a arma a nada que não estejas disposto a destruir.

3- Mantém o dedo fora do gatilho até estares pronto a disparar.

4- Conhece o teu alvo e o que se encontra atrás dele.


Enquanto falávamos descontraidamente, disse-lhe que o meu olho diretor era o esquerdo,  que eu era destro e que para ver as miras como deve ser tinha que rodar ligeiramente a cabeça. Mal acabo de lhe dizer isto, o John corrige-me a posição. Sugere que ao invés de rodar a cabeça incline a arma para a esquerda, para adquirir as miras mais rapidamente.

Ainda comigo confortavelmente sentado, explicou-me a posição de pronto, em que o atirador tem os braços esticados e a arma a apontar para o chão num ângulo de 45º.



Explicou os 6 passos para tirar a arma do coldre e disparar sobre uma ameaça:

1- Bater com a mão esquerda no peito enquanto que a direita agarra a empunhadura da arma. Estes movimentos devem ser o mais rápidos possível. Bate-se com a mão esquerda no peito para garantir que esta nunca se atravessa à frente do cano.

2- Sem mexer a mão esquerda, puxar a arma para cima na vertical.

3- Sem mexer a mão esquerda, rodar o pulso direito para que o cano aponte para o alvo. Caso a arma tenha segurança manual, é neste passo que esta deve ser desativada.

4- Juntar as mãos.

5- Trazer a arma à altura da vista.

6- Esticar completamente os braços.


A arma pode ser disparada em qualquer altura desde o ponto 3 inclusive até ao 6. Para voltar a colocar a arma do coldre efetuam-se os mesmos passos por ordem inversa, tendo o cuidado de, antes de colocar a arma no coldre, afastar bem o dedo indicador do gatilho e da empunhadura da arma.


Explicou também os procedimentos para carregar e descarregar a arma. Para carregar executam-se os seguintes passos:


1- Tirar a arma do coldre e levá-la à posição de pronto.

2- Aproximar a arma do peito e inspecionar a câmara visualmente. Deve estar vazia.

3- Colocar um dedo no orifício do carregador para garantir que este não se encontra lá.

4- Inserir um carregador no orifício.

5- Agarrar a corrediça com a palma da mão esquerda, puxando-a violentamente para trás até que a mão bata no nosso ombro.

6- Inspecionar visualmente a câmara garantindo que lá se encontra uma munição.

7- Inspecionar táctil e visualmente o carregador para garantir que está corretamente instalado.

8- Colocar a arma no coldre.




Para descarregar a arma executam-se os seguintes passos:


1- Tirar a arma do coldre e levá-la à posição de pronto.

2- Aproximar a arma do peito e inspecionar a câmara visualmente. Deve conter uma munição.

3- Verificar que o carregador se encontra instalado.

4- Retirar o carregador.

5- Agarrar a corrediça com a palma da mão esquerda, puxando-a violentamente para trás até que a mão bata no nosso ombro. Isto deverá ejetar a munição da câmara.

6- Inspecionar visualmente a câmara garantindo que está vazia.

7- Colocar um dedo no orifício do carregador garantindo que este não se encontra no local.

8- Colocar a arma no coldre.


Apesar de ter passado pouco mais de meia hora, eu já estava a desesperar. Então e quando é que começamos a atirar?




Disse-lhe que a policia e GNR em Portugal usavam as armas com a segurança manual desativada e sem munição na câmara. Nem imaginam o que o gajo gozou com isto. Durante todos os dias do curso, sempre que se lembrava, o John gozava com a forma como a polícia portuguesa usa as armas.

Aproveitou para falar nos 3 tipos de problema ou avaria que podem acontecer durante a utilização de armas de fogo:

Problema número 1. Falha a alimentar. Ao apertar o gatilho não acontece nada porque não há munição na câmara. Aquilo que a policia e GNR chamam a forma normal de transportar uma arma, os americanos chamam-lhe o problema número 1... Lindo... Resolve-se batendo no carregador para garantir que está bem instalado, puxando a corrediça atrás e inclinando ligeiramente a arma para a direita.

Problema número 2. Falha a ejetar. A arma não conseguiu ejetar um casquilho vazio e este encontra-se preso entre a corrediça e a câmara. Resolve-se puxando a corrediça atrás e inclinado a arma ligeiramente para a direita para facilitar a ejeção do casquilho vazio.

Problema número 3. Dupla alimentação. Este problema é causado pelo utilizador na maior parte dos casos. Está uma munição carregada na câmara e está outra a meio caminho entre o carregador e a câmara. Este é o problema mais complexo de resolver. Na maior parte das armas modernas, de plástico, resolve-se premindo o botão de retenção do carregador para o libertar para o chão e, ao mesmo tempo puxar a corrediça atrás repetidas vezes para ejetar a munição que se encontrava na câmara. Em seguida, coloca-se um carregador novo na arma e puxa-se novamente a corrediça atrás.

Depois desta dose de teoria, chegava finalmente a altura de dar os primeiros tiros. Dirigimo-nos à linha dos 3m onde o formador demonstrou os passos para tirar a arma do coldre e dar 2 tiros em seco. A seguir foi a minha vez de praticar repetidas vezes. Depois de vários disparos em seco tive ordem para carregar a arma e, ao sinal do formador dar 2 tiros no tronco ou massa central do alvo.




A seguir a um confronto armado é normal o atirador ficar com visão de túnel, ou seja sem visão periférica. O John conta a história de dois polícias que responderam a uma atirador num hospital e tiveram que disparar sobre esse atirador. Posteriormente, durante uma sessão de acompanhamento psicológico um dos polícias disse que só se lembrava de ver  latas de cerveja a rodopiar pelo ar. Depois de algum trabalho de investigação, chegaram à conclusão que o que o polícia viu  a rodopiar pelo ar foram os casquilhos vazios que eram ejetados da arma do seu parceiro. Isto deve-se à visão de túnel. Para quebrar a visão de túnel, após os disparos, deve-se olhar 180º para o lado direito e 180º para o lado esquerdo, verificando a existência de ameaças e quebrando a visão de túnel. A partir daqui, no final de cada exercício, antes de colocar a arma no coldre, na posição de pronto, olho 180º para cada lado.

As estatísticas dos confrontos armados deram origem à regra dos 333. Isto quer dizer que a maioria dos confrontos armados se dão a uma distância de 3 metros, são disparados 3 tiros e têm a duração de 3 segundos. Por causa desta regra, damos sempre, pelo menos 2 tiros (o termo certo é pares controlados) no alvo e, a maior parte do treino é feita a 3 metros do alvo.

Em seguida o instrutor deu ordem para recuar para a linha dos 5 metros e dar mais 2 tiros no alvo. Este processo foi repetido para as linhas dos 7, 10, 15 e 25. A 25 m, o John diz que a técnica mais adequada pode não ser a de disparar sobre o alvo, mas sim a técnica RLH, que quer dizer “Run Like Hell”. Traduzo isto por CCC ou seja, “Correr Comó Caralho”. Depois de avaliar a forma como eu disparava o John fez algumas correções e introduziu um novo elemento no treino, a pausa respiratória.

A pausa respiratória é o momento em que os pulmões estão vazios e que antecede a inspiração. É neste momento que os disparos vem ser feita. Para garantir que os disparos saem sempre na pausa respiratória, num caso de defesa pessoal, deve-se sempre gritar uma ordem ao atacante. Ex: Larga a arma! Pára! Ou algo do género. Esta ordem tem como objetivos, dar uma hipótese ao atacante para desistir das suas intenções, intimidá-lo e atingir a pausa respiratória. Todos os exercícios daqui para a frente começaram com uma ordem gritada para o alvo. Repeti as sequências de 2 tiros nas distâncias referidas acima, com muito melhores resultados devido à pausa respiratória. Dou por mim a gostar da Springfield XD.



A meio do exercício fico sem munições e tenho que fazer um recarregamento de emergência. Os recarregamentos de emergência fazem-se deixando cair o carregador vazio para o chão agarrar num dos que se encontra na bolsa porta carregadores, tatear com o indicador para ter a certeza que este carregador contem munições,  inseri-lo num único movimento no orifício apropriado e levar a corrediça à frente. Os carregadores vazios são inúteis e, como tal, devem ficar no chão, não devendo nunca ser colocados nas bolsas porta carregadores ou nos bolsos.

Para além dos recarregamentos de emergência que ocorrem quando a arma fica sem munições e a corrediça fica trancada atrás, existem os recarregamentos táticos Estes fazem-se numa pausa no combate, quando estamos atrás de cobertura. Um recarregamento tático envolve os seguintes passos:

1- Com a arma na posição de pronto, tocar com a mão esquerda na bolsa porta carregadores para ver se esta tem carregadores cheios.

2- Libertar o carregador que se encontra na arma e guarda-lo num bolso. Este carregador ainda poderá ser útil mais tarde.

3- Retirar um carregador cheio da bolsa porta carregadores e coloca-lo na arma.


Após praticar os recarregamentos algumas vezes apercebo-me que o botão de retenção do carregador na XD é difícil de usar para mim. É duro e está retraído, tornando-se difícil de aceder. Os carregadores recusam-se a cair. Tenho que usar a mão esquerda para puxar o carregador e o atirar para o chão. De todo o tempo que usei a arma foi a única critica que tive para lhe apontar.




Fizemos uma pausa para comer os snacks que a mulher do John tinha preparado para nós. Enquanto comíamos o John explicou-me que os confrontos se regem pelo ciclo OODA (Observe; Orient; Decide; Act), que se pode traduzir por Observar, Orientar, Decidir e Agir. Ambos os oponentes passam continuamente por todas as fases deste ciclo. Se um atacante tem uma arma apontada para nós, já passou as fases da observação e da orientação e, neste momento tem a vantagem sobre nós. Se dermos um simples passo para um dos lados, forçamos o atacante a reiniciar o ciclo ganhando segundos vitais. A partir daqui todos os exercícios começam com um passo para um dos lados.

Repetimos mais uma sequência de 2 tiros para a massa central dando um passo para o lado no início. Sempre que se efetua um recarregamento de emergência também se deve dar um passo ao lado para dificultar a tarefa do adversário. Lembrem-se, é mais difícil acertar num alvo em movimento do que num alvo parado.

Treinamos a resolução de problemas, onde voltei a ter dificuldades com o botão de libertação do carregador da XD na resolução do problema nº3. Os dois outros problemas resolvem-se fácil e rapidamente. O coldre de Kydex da XD tem arestas vivas que me cortam o dedo médio em vários sítios ao retirar a arma do coldre. Depois de um penso rápido, estou como novo. Por esta altura começa a chover e tivemos que fazer uma pausa de quase 2 minutos. Toda a gente em Vegas está surpreendida pelo clima. Aqui só costuma chover e Janeiro e, este ano, em pleno Julho, quando deviam estar cerca de 45 ºC, chove e estão 36 ºC. Eu agradeço a “baixa” temperatura. Apesar disto já tenho um escaldão no pescoço. Pus protetor solar na cara e nos braços, mas esqueci-me do pescoço. Sou oficialmente um “red neck”!





O instrutor está muito surpreendido com a quantidade de teoria que eu sei e com a velocidade com que eu a aplico na prática. O meu ego não podia estar maior. Vamos passar ao tiro de precisão. O objetivo é dar 5 tiros num único buraco esfarrapado, num alvo do tamanho de uma moeda de1€, a 3 metros. O gajo exemplifica fazendo-o parecer a coisa mais simples do mundo. Quando chega a minha vez só sai merda. Lá se vai o meu ego inchado. Foda-se, estava tudo a correr tão bem...

O que se passou foi que não estava a fazer bem o reset ao gatilho e não me estava a concentrar apenas na mira da frente. O meu olhar estava a saltar entre o alvo e a mira da frente. Nova tentativa e nova cagada de grandes dimensões. Pausa para uns tiros em seco. O instrutor corrige a posição do meu dedo no gatilho, que lhe deve tocar apenas com a ponta e eu estava a usar o meio do dedo. Nova série de 5 disparos, desta vez menos maus. E isto que estava a correr tão bem até ao tiro de procissão.

Mais uma tentativa, desta vez com o instrutor a gritar-me ordens aos ouvidos enquanto eu disparava os 5 tiros. Desta vez fiz o tal buraco esfarrapado. Nem imaginam o orgulho que senti em mim. A seguir, novo buraco esfarrapado, desta vez a 5m. O meu ego volta a atingir proporções gigantescas.

Estava cansado do esforço. Estava na altura do almoço. O John deixa-me a guardar a barraca, de arma carregada à cintura e vai buscar o almoço. Regressa com 2 sandes de frango do Burger King. Disse-me que o almoço ficava por conta dele. Comemo-las enquanto falávamos de armas e dos meus gostos pessoais. Prometeu-me que, no dia seguinte, me traria uma caçadeira e duas carabinas para eu experimentar.

Desde cedo, percebi que este não era o típico americano básico. Conhece vários países da Europa, foi varias vezes a Itália para praticar o seu italiano e, acima de tudo, não pensa como a maioria dos americanos em relação às armas. A arma que usa para se defender no dia a dia não é uma qualquer 1911 em calibre .45 ACP ou uma Glock em calibre .40 S&W, mas sim uma FN FiveSeven, no calibre 5,7 x 28 mm, que a maioria dos americanos despreza por ter um diâmetro muito pequeno. O John usa a FiveSeven no dia a dia para se defender mas, nos 2 dias do curso, usou uma Glock 23, completamente customizada, no calibre .40 S&W, para ser mais parecida com a arma que eu estava usar.

Depois de almoço, perguntou-me se queria experimentar a Glock 23 dele. Pergunta parva. Claro que sim! Mudei para o coldre da Glock que iria usar até final do curso. Repetimos os exercícios da manhã que serviram como aquecimento para a tarde. A grande surpresa para mim foi o facto de o recuo ser quase igual ao da XD 9 e da arma ser extremamente fácil de controlar. A minha expectativa seria de que a sua utilização fosse como a da Glock 32, no calibre .357 SIG, que é uma besta, tanto ao nível do coice como do levantamento do cano. Quando falei nisto ao John ele disse-me que eu tinha razão, e que no caso da arma dele isso não acontecia devido às modificações que ele fez.





Depois de terminados os exercícios de aquecimento, mudei para a Glock 34, em 9 mm Parabellum que é muito mais barato que o .40 S&W. A Glock 34  é o modelo de competição da Glock no calibre 9 mm Parabellum. Tem um cano de 5,32'' e leva carregadores com capacidade para 17 munições. Apesar das suas maiores dimensões consegui usar o coldre da Glock 23 que já tinha posto porque a parte de baixo deste é aberta deixando que a frente da arma o ultrapasse. As suas dimensões são  maiores que as da Glock 17 que é considerada por muitos como exageradamente grande. Pensava que ia ter dificuldades a tirá-la do coldre mas, como disse o John - “bull shit!”.

Chegava agora a altura de melhorar a minha velocidade. Até agora estava a ter resultados bons ao nível da precisão, mas estava a ser muito lento a efetuar os disparos. Estava na altura de começar a rodar os alvos. A distâncias até 10 m, não tive dificuldades com os pares controlados, quando passamos para as sequencias de 3 e 4 tiros, já comecei a lutar contra o tempo. Muitas vezes não conseguia dar o último tiro no alvo antes que este desaparecesse.

Seguindo as indicações do John, fui evoluindo até conseguir tirar a arma do coldre e disparar 4 tiros em 1,82 s, todos acertando na massa centrar do alvo a 7 m. Nem imaginam o quanto inchado estava o meu ego quando o gajo me diz o tempo. Claro que muito do mérito vai para a Glock 34, por causa da grande distância entre miras que facilita a precisão do tiro. Duvido que tivesse conseguido os mesmos resultados com a XD ou com a Glock 23.

Por esta altura, o John fala da posição de disparo. Ele diz que uma boa posição de disparo (boa para cada individuo em particular), é a coisa mais importante para garantir bons resultados de forma consistente. Para me provar isto ele diz que consegue dar 6 tiros na massa central de um alvo com os olhos fechados, a 3 m depois de dar um passo para o lado. Nem imaginam o esforço que fiz para não me mandar para o chão a rir. Mordi o lábio inferior para tentar manter cara séria enquanto ele se preparava para demonstrar. À medida que ele ia fazendo a demonstração a minha expressão ia-se alterando de cara de gozo para pura estupefação. Então não é que aquele animal conseguiu por todos os 6 tiros no alvo?! Este gajo é o  meu herói! Esqueçam o Rambo e o Chuck Norris!

Ainda mal refeito do choque e com a maior cara parvo que alguma vez fiz, pedi-lhe para experimentar. Fui para a linha dos 3 m, virado para o alvo. Quando o gajo deu sinal, fechei os olhos, dei um passo para o lado, tirei a arma do coldre, apontei para o sitio onde pensava que o alvo estava e disparei 6 vezes. Abro os olhos e novamente cara de parvo. Então não é que acertei 5 dos 6 tiros no alvo?! E o que falhou o tronco do oponente ficou a apenas 1 cm do pescoço. Afinal, eu sou o meu próprio herói. Se o meu ego já tinha atingido proporções gigantescas, imaginem depois disto... Nem sei como consegui entrar no hotel de tão inchado que estava.





Terminámos o dia com head shots ou tiros para a cabeça. Os tiros para a cabeça fazem-se sempre que o par controlado no peito não detém o atacante, seja isto porque o atacante está a usar um colete à prova de bala ou porque está sob a influencia de drogas. A zona ideal para os tiros na cabeça tem o formato de um T a começar nos olhos e a terminar na boca. Deve-se evitar acertar na testa porque os ossos aí são muito duros e por vezes deflectem o projétil. O John contou a história de um polícia que levou um tiro de calibre .380 ACP, na testa e, o projétil subiu entre a pele e o crânio saindo pela parte de trás do pescoço. O polícia sentiu dor, mas não percebeu que tinha levado um tiro. Eu já tinha ouvido uma história parecida mas onde a pessoa foi alvejada com um tiro de .25 ACP (sim o famoso 6,35 mm que se usa em Portugal para autodefesa), e o projétil contornou o crânio pela lateral e saiu pela traseira.

Efetuámos várias séries de pares controlados a 3, 5 e 7 m, seguidos de um tiro na cabeça caso o instrutor desse ordem para isso. Os tiros para a cabeça são sempre tiros lentos, cuidadosamente apontados, garantindo a máxima precisão possível. Segundo o instrutor um único tiro na cabeça é suficiente para causar um blue screen ao atacante e desligá-lo completamente. Nunca se deve dar mais que um tiro na cabeça. Este tipo de tiros não deve ser tentado a diferenças superiores a 7 m devido ao grau de dificuldade inerente. Por esta altura, acabam-se as 400 munições que o John tinha levado naquele dia. Se a juntar a estas 400 contarmos as cerca de 40 que disparei com a Glock 23, parece-me uma boa soma.

E, desta forma grandiosa termina um dos melhores dias da minha vida. Não me lembro de alguma vez me ter divertido tanto com as calças vestidas. O instrutor disse que era melhor levar o cinto com o coldre e o porta carregadores para o hotel para não perdermos tanto tempo com isto no dia seguinte. Ajudei o John a desmontar as coisas e a guardá-las na carrinha e levou-me ao hotel na sua enorme Toyota Tundra com motor V8 de 5,7 litros a gasolina. Ah leão!

Pelo caminho, o John vai sugerindo coisas para fazer e sítios para jantar. Perdemo-nos 2 vezes no caminho para o hotel. Até custo a entrar no hotel de tão inchado que está o meu ego. A Vaselina é que não está tão bem. Passou o dia com náuseas e tonturas, provavelmente causados pelo esforço exagerado do dia anterior e devido a algum jetlag atrasado. Nem o dia inteiro na piscina a ajudou a melhorar.






Apesar de tudo ainda conseguiu arranjar energia para irmos jantar ao Maggiano's, um restaurante italiano a 5 minutos a pé do nosso hotel. Só teve que esperar um pouco que eu tomasse um duche e saísse da roupa imunda em que me encontrava. Por esta altura apercebo-me que, para além dos vários cortes no dedo médio da mão direita também tenho uma bolha no polegar direito que se deve ao coice da arma. Ossos do ofício. Não lamento estas mazelas nem por um segundo. Antes de sairmos do hotel ainda reservámos um carro para o dia 18-07-2012, para irmos ao Pro Gun Club, em Boulder City.

Apanhámos o shuttle para o Wynn que, por acaso, parou mesmo à porta do centro comercial onde fica o Maggiano's. Ao entrar no restaurante, a rececionista disse-nos que tínhamos 30 minutos de espera. Quando já estávamos a desistir, um empregado muito simpático disse-nos que uma mesa tinha acabado de ser libertada e que, se esperássemos que ele a limpasse, podíamos ficar com ela. Jantámos muito bem e por um preço razoável. Quando nos perguntaram o que queríamos beber dissemos que queríamos duas águas e qual não foi o nosso espanto quando nos trouxeram dois gigantes copos de água fria com gelo. Ao longo do jantar iam enchendo constantemente os copos de água. Achámos o facto de partirem do principio que queríamos água da torneira no lugar de água mineral fantástico e um exemplo a seguir nos países civilizados com boa qualidade da água del cano. Este pormenor voltar-se-ia a repetir em todos os outros restaurantes onde comemos. Na maioria dos restaurantes em Portugal levam a mal se os clientes bebem apenas água mineral. Acho que nos expulsariam de muitos restaurantes se pedíssemos água da torneira. Nos poucos restaurantes onde existe um jarro com água, esta está quente (natural) e seria impensável para a gerência servir água fria ou com gelo.

Depois de jantar, regressámos ao hotel a pé e fizemos o amor como terapêutica para a Vaselina. Não dizem que o sexo cura quase tudo? Tive bastante dificuldade a adormecer devido ao estado de excitação em que estava.






Dia 3 - 17-07-2012 - Las Vegas

Voltei a madrugar para estar pronto a horas. Já estava acordado quando o despertador tocou, devido à excitação. Parecia uma criança na véspera de Natal. Tomei duche e comi o pequeno-almoço à pressa. Deixei a Vaselina ainda meio enjoada, na cama e desci.

Desta vez consegui chegar à entrada do hotel uns minutos antes da Mirelle. Entrei no carro e partimos, desta vez sem enganos no caminho e sem paragens para café. Pelo caminho ela ia perguntando tudo e mais alguma coisa sobre mim e a Vaselina. Deixou-me novamente na carreira de tiro nº 10 e despediu-se.

O John já tinha tudo preparado. Colocou-me a Glock 34 no coldre e repetimos alguns dos exercícios do dia anterior para aquecer. Depois de terminado o aquecimento chegava a altura de treinar sacar a arma de um coldre escondido. Vesti um colete para esconder o coldre e a arma. Há duas formas de esconder a arma. Uma é usar um colete ou casaco aberto. A outra é usar um casaco fechado ou uma T-shirt. O segundo método é o mais eficaz para esconder a arma, mas o mais lento para a sacar. O coldre deve ficar sempre na lateral, tal como fica se não estivesse escondido, ou seja como a polícia ou a GNR o usam.

Praticámos primeiro o método mais fácil, de casaco aberto. Os passos são quase iguais aos usados para retirar a arma de um coldre exposto. Apenas muda o primeiro passo para retirar a arma do coldre e o último para voltara colocar a arma no coldre. Ao efetuar o primeiro passo, a mão esquerda bate contra o peito o mais rapidamente possível, enquanto que o polegar da mão direita afasta violentamente o casaco para trás e agarra a empunhadura da arma. O movimento de afastar o casaco para trás é facilitado se o bolso direito tiver algum peso para criar inércia. No meu caso usei uma pequena pedra. Ao voltar a colocar a arma no coldre, no último passo, a mão esquerda não fica parada no peito, mas segura no casaco, bem alto, enquanto que a direita volta a colocar a arma no coldre. Repetimos este exercício várias vezes a várias distâncias, disparando sempre um par controlado.





No segundo método, com a T-shirt a cobrir o coldre, variam apenas o primeiro passo para retirar a arma do coldre e o último para a recolocar lá. No primeiro passo, a mão esquerda não fica no peito. Ambas as mão agarram a parte de baixo da T-shirt, uma de cada lado do coldre e a puxam exageradamente para cima. A mão esquerda mantém-na em cima enquanto que a mão direita agarra a empunhadura da arma. No último passo é muito parecido com o método anterior. A mão esquerda puxa e mantém a T-shirt em cima enquanto que a mão direita coloca a arma no coldre. Repetimos este exercício várias vezes a várias distâncias, disparando sempre um par controlado.

Antes de passar à parte mais divertida de todas, fizemos uma pausa para comer uns snacks que a Mirelle tinha preparado. Desta vez ainda se tinha esmerado mais na quantidade e variedade. Conversámos um pouco sobre economia e política.

Estava na altura de um dos momentos altos do dia, disparar pares controlados contra múltiplos alvos. Primeiro em sequência e depois segundo a ordem e quantidade ditadas pelo John. Por vezes, enquanto eu estava na posição de pronto a sondar a área, o John gritava “cabeça, alvo número X”, o que acrescentava algum drama à situação. Para complicar um pouco mais, a certa altura os alvos começaram a rodar. Treinámos isto a várias distâncias, sendo bastante difícil a 25 m. Parecia o Rambo, mas sem os problemas de fala.

Depois de toda esta excitação (acho que premeditadamente) o John mandou-me fazer novamente tiro de precisão num alvo do tamanho de uma moeda de 1€, o tal buraco esfarrapado, a 5m. Claro que, devido à pulsação elevada e à excitação do exercício anterior, só fiz merda. Uma quantidade indescritível dela. Depois de me acalmar e com o John novamente a corrigir a posição do meu dedo no gatilho e a gritar-me ordens aos ouvidos, consegui fazer 2 buracos esfarrapados a 5 m. Nada mau, mas um esforço tremendo para um nabo como eu.





Passámos para a linha dos 7 m e fizemos novo exercício de precisão. Desta vez, um único tiro numa circunferência com as dimensões aproximadas das da boca de um copo de água de plástico, daquelas que se encontram nos escritórios, junto às fontes de água. O alvo tinha 4 bolas numeradas e o John gritava o número da bola que queria que eu alvejasse. Não falhei nenhuma.

No exercício seguinte a minha pulsação voltou a subir bastante. Trata-se de disparar sobre um adversário à distância do mau hálito, ou seja à distância de um braço esticado. Se o atacante está a esta distância, não podemos retirar a arma do coldre e esticar os braços pois o atacante desarmar-nos-ia. Nesta situação, os disparos são efetuados do passo nº 3, ou seja, com a mão direita à altura do peito, com o braço retraído e a arma ao lado do tronco e protegida por este. Depois de efetuar os disparos, na posição de pronto, deve-se inspecionar visualmente a boca do cano para verificar que não tem obstruções. Deve-se ter extremo cuidado para não virar o cano para nenhum sitio em que coloque em perigo o utilizador ou outras pessoas que estejam na zona. Para pessoas baixas ou para casos em que se dispara contra atacantes altos, no passo nº 3, ao rodar a arma para o alvo deve-se inclinar o tronco para trás, o que vai fazer com que os disparos atinjam o alvo mais acima.

Enquanto falamos descontraidamente o gajo atira-me um cartucho vazio que eu apanho. Faz isto para exemplificar que uma coisa tão básica pode servir como distração para ganhar tempo ou distância. Treinámos tocar com a ponta dos dedos no alvo para o distrair, dar um passo atrás sacar a arma e disparar dois tiros.

Regressamos aos tiros para a cabeça, desta vez em movimento. Treinámos disparar um tiro para a cabeça enquanto falamos com o alvo para o distrair e andamos para a frente para encurtar a distância e aumentar as probabilidades de acertar. Treinámos também disparar um par controlado enquanto recuamos para nos afastar de um atacante.

Tal como no dia anterior, eu estava tão excitado que nem me lembrava da comida. O John, já completamente esfomeado obriga-me a parar e vai buscar comida. Volto a ficar de guarda ao forte enquanto ele vai buscar mais umas sandes de frango. A Vaselina diz que já vomitou a casa de banho do quarto de uma ponta à outra, mas que está estável e não precisa de nada.

Depois de almoço fizemos mais uma sessão de aquecimento, repetindo alguns dos exercícios anteriores mas, acrescentado um novo elemento para complicar e causar stress. Desta vez os alvos tinham, ao lado, imagens de transeuntes inocentes e era fundamental apontar mais cautelosamente para não atingir pessoas inocentes. O instrutor explica que cada bala tem agarrado a ela um advogado e é importantíssimo garantir que cada bala acerta no alvo pretendido. Demorei muito mais tempo a apontar mas, após completar todos os exercícios, não acertei em nenhum transeunte inocente.

Chegamos agora à parte dos reféns. Neste exercício, temos que neutralizar os 2 atacantes que se escondem atrás de um refém. Para complicar as coisas,  o John pergunta-me qual o nome da minha mulher e escreve-o no corpo da refém. Para adicionar  mais pressão ainda me diz que eu tenho duas hipóteses; ou levo eu o alvo à Vaselina ou ele lho envia por correio. O objetivo é disparar 3 tiros na cabeça de cada um dos agressores sem atingir a refém. Disparo a 5 m e consigo acertar todos os tiros no atacante da esquerda. Com o suor a escorrer-me pela cara e as mãos trémulas disparo os 3 tiros sobre o atacante da direita. Todos no alvo! Que alívio! Era eu que ia mostrar o alvo à Vaselina, de peito inchado com orgulho! Faço mais um alvo destes sem nomes e a 7m. Dos 6 tiros disparados apenas um fica fora do T recomendado. Todos os outros ficam na zona ideal. Lá vai o meu ego outra vez...





Ficam apenas a faltar as reações. Este exercício serve para nos preparar para reagir a atacantes que não se encontram na nossa linha de vista direta. Isto quer dizer que os atacantes se encontram à nossa direita (no meu caso, do lado da arma), à nossa esquerda (no meu caso, do lado de suporte) ou atrás de nós. As reações partem do princípio que estamos a reagir a alguém que chamou a nossa atenção de alguma forma. Antes de efetuar o primeiro passo para retirar a arma do coldre, o nosso pescoço já está virado para o agressor. O primeiro passo, para retirar a arma do coldre varia ligeiramente. A mão esquerda bate contra o peito, o pé que que encontra mais próximo do alvo roda para ficar a apontar na direção do atacante e a mão direita agarra a empunhadura da arma. No segundo passo, o pé que está mais afastado do atacante dá um passo para ficar paralelo ao outro pé e a arma sai do coldre na vertical. Todos os outros passos executam-se normalmente. Quando respondemos a uma ameaça que se encontra atrás, devemos sempre rodar para o lado oposto ao braço que tira a arma do coldre para proteger a arma. No meu caso, que sou destro, devo rodar para o lado esquerdo ou no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Repetimos várias vezes estes exercícios.

Terminada a matéria, chegava agora a altura do teste. O instrutor disse-me que precisava de 46 munições. Como tinha 17 x 4, disse-lhe que estava pronto. As regras eram simples. Começava com 230 pontos. Se a  ordem fosse para atirar à massa central do alvo devia colocar todos os tiros nas zonas críticas do alvo. Caso desse tiros superficiais no alvo perderia 3 pontos, caso falhasse completamente o alvo perderia 5 pontos. As mesmas regras se aplicariam à cabeça. Por cada vez que ficasse sem munições perderia 5 pontos. Por cada vez que deixasse um carregador, com munições, cair no chão perderia 5 pontos.

Durante todo o curso, o instrutor sempre se fartou de gabar os meus dotes, dizendo que eu era muito acima da média. Apesar de eu achar que aquilo era tanga o meu ego foi crescendo. De repente, quase como se o objetivo fosse esmagar completamente o meu ego, o instrutor informa-me que costuma fazer o teste com os alvos a rodar, mas que, no meu caso, ia fazer o teste com os alvos estáticos. Por mais que insistisse não consegui que me fizesse o teste com o grau de exigência que ele considera normal. Terminei o teste com 227 pontos, perdendo apenas 3 para um tiro na cabeça que ficou fora da zona ideal, mas derrotado pelo facto de não o ter feito com o grau de dificuldade máximo. Ao longo do curso, por 4 vezes instalei incorretamente o carregador na arma, deixando-o cair após o primeiro disparo ou fazendo com que a arma não alimentasse corretamente. Felizmente que, durante o teste, isto não aconteceu. Outra coisa que também não aconteceu foi eu esquecer-me de fazer os recarregamentos táticos ou deixar cair o carregador cheio de munições. Estive “on fire”.

Terminado o teste, estava na hora de começar a experimentar todos os brinquedos que o John me tinha trazido. Começámos pela FN FiveSeven que ele usa para autodefesa. O botão de retenção do carregador não estava a funcionar bem e havia o perigo de a mola se perder se eu o usasse. Tive bastante cuidado para não o usar.

Todas as armas pessoais do John têm uma lanterna. A FiveSeven não é exceção. O John coloca-me o coldre feito à medida para a FiveSeven, explica-me como é que se deve tirar a arma do coldre e fazemos uns exercícios. A FiveSeven, tem uma segurança manual que se ativa e desativa com o dedo indicador. Todos os passos para a retirar do coldre são iguais aos das Glock exceto o passo nº 3, no qual se roda a arma para o alvo e, ao mesmo tempo, se desativa a segurança. Ao colocar a arma no coldre deve-se ativar a segurança, invertendo este passo.

O que mais me impressionou na FiveSeven foram as suas enormes dimensões. A arma é ainda maior que a Glock 34 que eu tinha usado na maior parte do curso! Outra das coisas que me impressionou foi a facilidade com que se atinge o alvo. O coice é parecido ao de uma Glock em 9mm, mas o cano praticamente não levanta após cada disparo, facilitando imenso os tiros seguintes. Não gostei do facto de ter segurança manual. Num dos exercícios, sob stress, esqueci-me de desativar a segurança manual e a arma não disparou. Numa situação de vida ou de morte aquilo poderia ter-me custado a vida. Em resumo, adorei todos os 20 tiros que disparei com esta arma. Foi um dos pontos altos da viagem!





Agora chega a vez da Beretta Cx4 Storm, uma carabina que dispara o calibre 9 mm Parabellum e usa os carregadores da 92 FS. Tal como todas as armas do John, esta também tem uma lanterna tática. O gajo explica-me os procedimentos básicos para operar a arma em segurança e eu encho um carregador de 15 munições e outro de 30 e comecei a fazer barulho. É uma arma muito ergonómica e fácil de usar. É quase tão fácil conseguir bons resultados com esta arma como com a minha Ruger 10 / 22. Tem umas miras de metal fabulosas. Depois de esvaziar os 45 tiros, estava na altura de passar à arma seguinte, a AR-15.

Eu e a Vaselina, já tínhamos disparado um M16 A1, no Vietname. Como tal achei que o AR-15, a versão semi-automática do M16 seria uma brincadeira de crianças. Logo que o John me explicou os procedimentos básicos de operação da arma, passei à ação. A arma tinha uma lanterna tática, uma mira de ponto vermelho e uma mira telescópica da marca EOTech que funcionava em conjunto com a mira de ponto vermelho da mesma marca.

O objetivo seria fazer um único buraco rasgado a 25 m com 5 tiros, usando ambas as miras. Deixem-me dizer, desde já que o objetivo não foi cumprido. Espalhei os 5 tiros à volta da moeda de 1€ mas nem um a atingiu. Que vergonha! Ainda bem que o gajo se esqueceu de trazer as munições de calibre 5,56 mm NATO que aquela arma utiliza e nós só conseguimos encontrar 5. Quantas mais munições houvesse, maior seria a minha humilhação. As minhas desculpas são duas, o peso enorme da arma, que afeta bastante um mariquinhas como eu, e o facto de a mira telescópica ampliar ainda mais os meus tremores e dificultar ainda mais a precisão no lugar de a facilitar. Enquanto me explicava o modo de operação da arma, o John disse algo inédito. Disse que, ao contrário do que muita gente diz, este (AR-15 e M16) não é o melhor sistema do mercado, apenas tem dois grandes pontos positivos. A facilidade de utilização e a facilidade com que se desmonta e se fazem as operações básicas de manutenção. Fiquei tão surpreendido com este comentário que nem sequer lhe consegui perguntar qual o sistema que ele prefere.

Apenas faltava mais um brinquedo, uma caçadeira de ação pump, uma Remington 870 Police Magnum. Dados os possíveis efeitos devastadores da caçadeira, o John decidiu arrumar o material todo e mudar para a carreira de tiro do lado antes de me passar a arma para as mãos. Depois de devidamente desequipado, ajudei-o a guardar tudo na pick-up e partimos para carreira de tiro imediatamente ao lado.

Aqui ele colocou um novo alvo num suporte e explicou-me como se operava a caçadeira. Aparafusado ao recetáculo está um porta cartuchos que tem 4 cartuchos de zagalote virados para cima e duas balas viradas para baixo. Esta separação faz-se para que, no escuro, seja fácil distinguir os 2 tipos de munição.

Como se trata de uma caçadeira tática, esta arma tem uma empunhadura do tipo pistola, muito parecida com a de um M16 ou AR-15 e miras como as de uma carabina, permitindo maior precisão. Com a ajuda destas fantásticas miras, coloquei 4 tiros rápidos de zagalote, num único buraco esfarrapado a 10 m. Agora vamos às balas. Duas na cabeça, dentro da zona ideal, também em sequência rápida. Sou mesmo bom! A seguir repito ambas as sequências com os mesmos resultados e o meu ego atinge proporções nunca vistas.






Em jeito de provocação pergunto-lhe porque é que ele prefere uma ação pump a uma caçadeira semi-automática (a grande maioria dos americanos prefere ações pump e nem sequer considera uma semi-automática para se defender). Para o espicaçar ainda mais digo-lhe que a minha Benelli Super 90, semi-automática, nunca me encravou, e eu já lá coloquei munições muito velhas e de má qualidade. Aqui chega outra surpresa. O John também prefere semi-automáticas. Acha que são tão fiáveis e mais eficazes que as pump. Ele só tem aquela arma porque é mais fácil dar as aulas com ela do que seria com uma semi-automática. Não tem a mais pequena intenção de se defender com aquela arma. Acha que a maioria dos americanos gosta de pumps porque gostam de se manter ocupados enquanto disparam a arma e gostam do barulho que a arma faz quando é engatilhada. Já sabia que este não era um americano típico mas, apesar disto, estou em choque com a resposta.

Desta forma épica termina o meu curso de Tactical Handgun Level I. O John diz-me que, quando quiser posso vir fazer o Tactical Handgun Level II ou um curso de carabina. Ele diz que também dá cursos de caçadeira, mas que acha que eu não me ia divertir num curso destes que ele considera demasiado complicado. Pessoalmente, ele não considera a caçadeira a arma ideal para autodefesa.

Antes de sairmos do complexo, e apesar de já passarem quase 2h da hora de fim do curso, ainda me faz a vista guiada à carreira de tiro, dando particular ênfase a uma zona exclusiva para uso de deficientes.

No caminho de regresso ao hotel vamos falando, principalmente dos desafios da paternidade e das suas alegrias também. Na sua qualidade de pai babado, diz que a filha foi a melhor coisa que já lhe aconteceu. O seu discurso ajudou-me bastante a deixar de estar aterrorizado com a ideia e a passar a ficar ansioso. Deixou-me no Trump e despediu-se calorosamente. Disse-me que no dia seguinte deixaria na receção o meu certificado de aproveitamento.

Encontro a Vaselina no quarto, fraquinha, mas feliz por me ver. Mostrei-lhe orgulhosamente o alvo com o nome dela no papel de refém. Tomo o duche da praxe e saímos para jantar. Tomámos o shuttle para o Wynn e andámos um pouco a pé em busca de um sítio barato para jantar.

Jantámos num restaurante mexicano ali próximo, onde comemos umas carnes grelhadas. Tal como no dia anterior, a Vaselina começou-se a sentir melhor fora do hotel. Depois de jantar fomos abastecer-nos ao Wallgreen's. Comprámos apenas uns iogurtes pois, no dia seguinte, como tínhamos o carro podíamos transportar mais peso.

Após chegar do supermercado achámos que era melhor voltar a tentar curar as maleitas da Vaselina com sexo. A dose do dia anterior não tinha sido suficiente. Vamos ver se amanhã está melhor.






Dia 4 – 18-07-2012 – Las Vegas – Boulder City – Las Vegas

Madrugámos mais uma vez para ir levantar o carro, um Chrysler Sebring ao Bell Desk do nosso hotel. Depois de mais um pequeno-almoço caseiro, descemos e preparámo-nos para a maratona de papelada que tínhamos pela frente. Depois de toda a burocracia tratada, dizem-nos que temos que usar o sistema de Valet para estacionar o carro no hotel, ou seja, de cada vez que chegarmos ao hotel, entregamos a chave do carro a um dos funcionários (valet) que nos dá um ticket e nos estaciona o carro. Quando quisermos levantar o carro, entregamos o ticket e alguém nos vai buscar o carro à garagem. Entregam-nos  um ticket e aí vamos nós. A Vaselina conduz e eu navego.

Já tínhamos a morada do Pro Gun Club colocada no GPS, portanto foi só seguir as indicações dadas pelo Navigon. A viagem de cerca de 30 minutos decorreu sem incidentes, por vias rápidas de 2 ou 3 faixas. De repente, no meio de lado nenhum, o GPS diz-nos que chegámos ao nosso destino. Foda-se. Isto estava a correr tão bem. Avançámos mais um pouco até entrar em Boulder City e parámos junto a uma bomba de gasolina. Saí do carro e perguntei a um local onde ficava o Pro Gun Club, ele diz-me para virar para trás e aponta-me para uma colina onde se lia em letras brancas gigantes “Pro Gun Club”.  Deu-me indicação para voltar para trás e virar para a estrada 95. Ainda nos perdemos mais uma vez até conseguirmos chegar ao clube que se encontra no sopé de uma montanha.

Estacionámos e dirigimo-nos à clubhouse onde chegámos precisamente à hora marcada e onde já éramos esperados. Mais uma vez, tive que preencher todas os impressos que me deram, vimos um vídeo sobre segurança e esperámos uns minutos que preparassem todas as armas que tinha escolhido. Aproveitei para pagar enquanto esperava e para comer um lanche que tínhamos levado. A funcionária dá-me 2 pares de protetores auriculares. Uns externos para usar sempre que estivesse na carreira de tiro e outros internos para pôr por baixo dos externos quando disparasse o Barrett. O calibre .50 BMG produz um ruído verdadeiramente ensurdecedor.

Finalmente, entregaram-me a chave de um carrinho de golf e mandaram-me seguir um funcionário, de nome Chris (ou Christopher) que seria o meu oficial de tiro e que seguia numa carrinha de caixa aberta, cheia de armamento. Estacionámos numa carreira de tiro a pouco mais de 100 m da clubhouse. Ainda bem que me deram um carrinho de golf, não fosse morrer de exaustão, pelo caminho. Estacionámos e o Chris começou imediatamente a retirar as armas da carrinha. Parecia o Pai Natal antes de entrar na chaminé da minha casa. Até estava vestido de vermelho e tudo.

Enquanto o Chris preparava as coisas, chega um membro do clube que se começa a instalar na posição mais afastada e que mete conversa com o Chris e comigo. É completamente avariado da cabeça. Só diz disparates e piadas. O Chris diz que ele passa a vida no clube, já faz parte da mobília. Diz que tem problemas com tendões e nervos e que, por causa disso só usa armas de ar comprimido. Mostra-me os seus 2 brinquedos e, quando me diz o preço deles as minhas pernas até vacilam. Voluntaria-se para me filmar, coisa que aceito imediatamente.






Chegou a altura de passar à ação. Começamos pelas armas mais fáceis de controlar e vamos, gradualmente, passando às mais complicadas. A primeira é a HK MP5, no calibre 9 mm Parabellum. O Chris prepara a arma, explica-me como posicionar o meu corpo para melhor controlar o levantamento do cano durante o tiro em rajada e como funciona o seletor de tiro. Entrega-me a arma pronta a disparar mas com a segurança manual ativada. Diz-me que devo sempre dar 3 tiros no modo semi-automático antes de passar a rajada. Este procedimento deve ser aplicado a todas as armas que o permitam.

Coloco-me em posição, seleciono o modo semi-automático, aponto ao alvo a 15 m, puxo o gatilho lentamente para trás e coloco um tiro mesmo no A, no centro do alvo. Talvez tenha sido sorte... repito o processo e outro tiro quase no mesmo orifício. Epá... isto está a começar bem. O terceiro tiro foi tão bom quanto os outros 2. Escolho o modo automático e tento fazer umas rajadas controladas. Volto a apertar o gatilho e deixo-o apertado por uns momentos disparando 4 ou 5 tiros. Agora a coisa já se torna mais difícil. Coloquei todos os tiros no alvo, mas muito afastados entre si. O cano sobe que se farta durante a rajada. Tentei nova rajada, mais curta, melhorando ligeiramente os resultados. Em seguida aponto para a base do alvo e dou uma longa rajada, gastando todas as munições e espalhando tiros por todo o alvo. Isto acabou com o que restava das 25 munições em menos de 1 segundo. A arma revela-se tudo aquilo que eu pensava sobre ela em semi-automático, mas é muito mais difícil de controlar em automático do que esperava. O facto de ser relativamente pesada ajuda a controlar o levantamento do cano em rajada.

Em seguida passamos para a UZI. Quando o Chris começa a preparar a arma eu peço-lhe para me deixar ser eu a fazê-lo. Diz-me que por norma não permite os clientes operarem as armas mas, como lhe pareceu que eu estava à vontade com as armas e que seguia as normas de segurança me ia permitir fazer isso. Explicou-me como se manuseava a UZI e deu-me o carregador com 25 munições. Inseri o carregador no seu recetáculo e coloquei-me em posição e disparei 3 tiros para a cabeça do alvo que, milagrosamente, ainda não tinha sido atingida.
Consegui um agrupamento decente, mas nada que se pareça com o que fiz com a MP5. Isto deve-se ao facto de a UZI funcionar com o obturador aberto, enquanto que a MP5 trabalha com o obturador fechado. Num sistema de obturador aberto, ao premir o gatilho, o obturador vai à frente, retirando uma munição do carregador e colocando-a na câmara, sela a câmara e só após a câmara estar selada é que o percutor embate contra a escorva disparando o tiro. Todo este movimento da arma dificulta o tiro de precisão. Num sistema de obturador fechado, ao premir o gatilho, a câmara já se encontra selada pelo obturador portanto, a única ação que acontece é a do percutor a embater contra a escorva, provocando o disparo. Um sistema de obturador fechado permite maior precisão mas, no caso de armas automáticas, existe o perigo de o cano e câmara aquecerem demasiado provocando aquilo que se designa por “cook off”, ou seja a auto ignição do cartucho ao entrar na câmara, sem necessidade de ser atingido pelo percutor. Num sistema de obturador aberto, as munições permanecem no carregador até ao momento em que o utilizador carrega no gatilho, não sendo afetadas pela temperatura da câmara.






O tiro em rajada foi exatamente o que estava à espera. “Spray and Pray”. Se achei a MP5 difícil de controlar em rajada, a UZI achei-a impossível. Tentei fazer rajadas controladas, de 2 ou 3 disparos mas acabei por espalhar chumbo por todo o alvo e algum fora dele. Para complicar ainda mais as coisas, sem me aperceber, libertei alguma pressão na empunhadura, o que fez com que ativasse a segurança da empunhadura e tivesse que pedir ajuda ao Chris para perceber o que se passava e conseguir terminar os restantes disparos. O serviço secreto americano, que é responsável pela segurança do presidente, usou durante alguns anos a UZI, debaixo dos casacos, no exterior, para proteger o presidente. Devido à pouca precisão da arma, esta foi substituída pela FN P90, que consideraram muito mais eficaz.

Por esta altura estou com um sorriso de orelha a orelha, e o melhor ainda estava para vir. Guardamos a UZI e passamos para a Erma Werke MP 40. Esta arma não tem seletor de tiro ou patilha de segurança. Para garantir que a arma não dispara, o manobrador deve ser rodado e encaixado numa reentrância no corpo da arma. Depois do Chris me ter explicado como operar a arma, coloco o carregador no recetáculo, ponho a arma em posição de fogo e aperto ligeiramente o gatilho, tentando simular o tiro semi-automático. Devido à baixa cadência de tiro desta arma, quando comparada com a MP5 e a UZI, é muito fácil conseguir dispará-la tiro a tiro. Consegui disparar 3 tiros numa zona do alvo que ainda estava relativamente limpa. À semelhança da UZI, a MP40 funciona com o obturador aberto, o que dificulta a precisão. A mira traseira, em U, também é mais difícil de usar que as miras em anel da UZI e da MP5. Apesar disto, os resultados obtidos foram muito semelhantes aos obtidos com a UZI. Nada mau para uma arma desenhada 10 anos antes.

A grande surpresa veio  quando soltei a primeira rajada. Que maravilha! A baixa cadência de tiro, aliada ao peso elevado, faz com que seja muito fácil de controlar durante o tiro em rajada. Mesmo durante rajadas mais longas consegui colocar todos os tiros no alvo. Se já tinha um enorme sorriso nos lábios antes de tocar nesta arma, imaginem agora. Como o que é bom nunca dura muito, depressa gastei os 25 tiros a que tinha direito.

Continuámos com as armas históricas. Chegava a vez da Sten Mk II, a equivalente inglesa da MP 40. Se a MP 40 foi concebia e construida com a qualidade em mente, a Sten foi construida para ser barata e descartável. O americano maluco que estava a filmar disse que a arma tinha ar de ter sido fabricada numa garagem. Na verdade, o gajo tinha razão. A Sten foi desenhada para que grande parte do seu processo de produção, pudesse ser levado a cabo em pequenas oficinas de vão de escada.

Uma vez mais, o Chris mostra-me como se opera a arma e dá-me instruções sobre a posição de fogo a adotar e os cuidados a ter durante o disparo. Esta é a arma menos ergonómica que alguma vez usei. Trata-se de uma arma mais leve que a MP 40, que opera de forma muito semelhante e, com uma cadência de tiro exatamente igual. Espero resultados muito semelhantes. Depois de, com alguma dificuldade, me conseguir colocar na posição de disparo, aperto o gatilho, o obturador vai à frente e... nada. Passo-a ao Chris que tenta resolver o problema sem sucesso. Um colega dele vem ajudar mas sem grande sucesso. Farto de esperar, digo-lhes que não me importo de trocar os 25 tiros que iria disparar com a Sten por outros 25 com a MP 40. Passados poucos minutos chega mais um carregador da MP 40 que eu despejo em rajadas médias no alvo já crivado de balas. Que arma maravilhosa!





Chega agora a altura de passar para a carreira do lado, com um alvo a 25 m. Chega também a altura de começar a brincar com os meninos crescidos. Íamos passar para as armas que usam calibres de fuzil e deixar em paz as sub-metralhadoras que usam calibres de pistola.

A primeira arma que disparei foi a HK G53, a meio caminho entre uma sub-metralhadora e um fuzil. Trata-se de uma arma com dimensões tão compactas, que partilha muitas das suas peças com a MP5. As suas dimensões e peso são muito semelhantes às da MP5. Esta arma destina-se a situações em que é necessária uma arma com as características da MP5 mas, onde os adversários usam proteção balística, sendo necessário um cartucho mais potente para os neutralizar. O Chris não perde muito tempo a explicar o modo de operação da arma, mas adverte-me para um coice mais elevado face ao da MP5 e para ter cuidado com a subida do cano para não dar tiros no telhado. De inicio coloca-se atrás de mim e segura-me no ombro mas, depois, ao ver que consigo controlar a arma, afasta-se.

Adoto uma posição de disparo mais agressiva, com mais peso apoiado sobre o meu pé esquerdo e menos sobre o direito. Coloco o carregador, seleciono o modo semi-automático e aperto o gatilho 3 vezes pausadamente. Ao olhar para o alvo vejo 3 orifícios muito próximos uns dos outros e a tocar no A central. Rodo o seletor de tiro para o modo automático e preparo-me para o pior. Já tinha disparado um M16 A1 no mesmo calibre,, no Vietname, em rajada, mas o cano estava fixo a um muro e não levantava durante a rajada. Após a primeira rajada controlada, com o G53 chego à conclusão que é pouco mais difícil de controlar que a MP5. Claro que posso ter achado isto porque já estava a ficar mais experiente a controlar armas automáticas, mas confesso que estava à espera de pior. Esvazio o carregador com rajadas curtas e controladas, no tronco do alvo. Por esta altura, o americano maluco deixa de filmar e vai continuar a preparar as coisas dele. Tive vergonha de lhe  voltar a pedir para filmar.

Depois do G53 chega a vez do Colt M4, a versão curta do M16. As dimensões são muito parecidas com as do G53, talvez ainda um pouco menores devido à coronha retrátil. O peso também é ligeiramente mais reduzido. Outra coisa que também é ligeiramente mais reduzia é a aparente qualidade de construção. O G53 parece muito mais robusto que o M4. Tal como o G53, o M4 também funciona com o obturador fechado, o que lhe confere precisão acrescida. Começo com os tradicionais 3 disparos em semi-automático, desta vez para a cabeça, onde faço um grupo muito apertado, semelhante ao que tinha feito com o G53. Depois de selecionado o modo automático, esvazio o carregador com rajadas de 3 ou 4 tiros. Pareceu-me um pouco mais difícil de controlar que o G53. Isto pode dever-se ao menor peso ou pode ser só impressão minha. Globalmente, são armas muito parecidas. Gostei mais das miras do G53 mas, as do M4 não lhe ficam muito atrás. Apesar das semelhanças não hesitaria em escolher o G53 se me dessem a opção. A peça que retém o obturador atrás no ultimo disparo está partida, o que faz com que seja necessário mais cuidado ao manusear esta arma. O Chris reclama entre dentes com o patrão que já devia ter arranjado esta arma há meses.





A arma que se segue é o Steyr AUG. Trata-se de um fuzil  de formato “Bullpup”, em que o carregador e sistema de disparo estão alojados atrás da empunhadura e do gatilho, na coronha da arma. Este tipo de desenho permite que os fuzis tenham uma cano de grandes dimensões enquanto que o tamanho global da arma se mantém reduzido. A título de exemplo, o cano do AUG tem o tamanho do cano de um M16, mas as dimensões totais do AUG são menores que as dimensões do M4 (a versão curta do M16). Outra solução inovadora do AUG é o seu carregador, compatível com o do M16, mas construido em plástico transparente para permitir aferir a quantidade de munições que contém.

Perdoem-me mas ainda tenho que referir mais mas quantas soluções inovadoras do AUG. Esta arma não possui miras de metal, no seu lugar tem uma mira ótica com amplificação de 1,5x, muito luminosa e que facilita imenso o tiro de precisão. A segurança manual é tradicional, mas o seletor de tiro não é. Apertando ligeiramente o gatilho, a arma opera em modo semi-automático. Apertando completamente o gatilho a arma produz uma rajada. Esta arma representou, para os fuzis de assalto tradicionais, o que a Glock 17 representou para as pistolas de combate tradicionais. Só é pena é que, tal como as Glock, seja feia como um porco.

Ao apontar a arma ao alvo, observo, pelo canto do olho direito, a janela de ejeção ali mesmo ao meu lado, o que me deixa desconfortável. Será que vou levar com casquilhos quentes na tromba? E o barulho? Com estas preocupações em mente, procuro uma zona vazia do alvo para aferir a precisão. Como o peso está concentrado atrás, é muito mais fácil manter a mira sobre o ponto exato que se quer atingir. E que mira esta! Coloco os 3 tiros inicias no mesmo buraco. I'm on fire! Aperto completamente o gatilho para soltar a primeira rajada controlada e percebo que é muito mais difícil de controlar que uma arma de formato tradicional. O peso concentrado na parte de trás, faz com que o cano levante muito facilmente durante o tiro de rajada. Talvez um profissional treinado consiga bons resultados em tiro automático, com esta arma, mas eu fiquei muito desiludido com ela e comigo.

Terminados os fuzis de assalto no calibre 5,56 x 45 mm NATO, chega a altura de experimentar as armas concebidas para homens de barba rija, daqueles homens com H maiúsculo. O problema é que a minha barba é tão rija quanto a de uma criança de 10 anos. Começamos pelo HK G3. Como não fui tropa, nunca tinha tido oportunidade de disparar o G3, razão pela qual a minha expectativa era muito, muito, muuuuito elevada.

Uma vez mais o Chris explica-me como se opera a arma. Claro que o modo de operação  é, em tudo, semelhante ao da MP5 e da G53. Uma grande diferença entre este e o G53 e MP5 é o tamanho. Foda-se, esta merda é grande! E o peso? Foda-se, esta merda é pesada! Quando disparo o primeiro tiro, sinto imediatamente a diferença entre o cartucho 7,62 x 51 mm NATO que o G3 dispara e o 5,56. Este sim é um cartucho potente! É um dos cartuchos mais versáteis e há mais tempo em utilização nas forças armadas por este mundo fora. É usado em fuzis de assalto, metralhadoras e armas de sniper.

Fico também satisfeito com o meu segundo tiro, colocado muito próximo do primeiro. Depois de contemplar os resultados dos 2 primeiros tiros dou por mim a lutar contra o peso do G3. A mira da frente já dançava sobre o alvo e eu não a conseguia estabilizar. Apesar disto e, para não dar parte de fraco, disparei o 3º tiro e, claro que fiz merda.

Rodo o seletor para a posição de full auto e cá vai disto. Como seria de esperar o tiro de rajada é quase impossível de controlar. Trata-se de um cartucho com muita potência que tem que ser domada. Alguém que nunca fez exercício físico na vida nunca vai conseguir controlar uma arma deste calibre em rajada. É fácil disparar rajadas curtas. A grande potência do cartucho provoca um coice muito superior ao das armas que disparei até agora. Em rajada parece que está um batalhão a espezinhar-me o ombro direito. O coice é ligeiramente inferior ao de uma caçadeira de calibre 12, não doí mas, no final do dia tinha uma mancha negra no ombro. As 20 munições foram-se num instante.






A arma que se seguiu foi a SAR 48, que é um clone da FN FAL. Segundo o Chris, até agora ninguém nunca tinha escolhido esta arma para disparar. Com toda a história que a FN FAL tem, custa-me a crer, mas não me arrependo. Esta arma dispara o mesmo calibre que o G3, o 7,62 x 51 mm NATO, também conhecido nos EUA como .308 Winchester.

Esta arma comportou-se de forma muito semelhante à do G3, tanto em tiro semi-automático como em automático. Pareceu-me pior em todos os aspetos. É menos ergonómica, alguns dos comandos são difíceis de operar pelas minhas mãos, parecem fora do lugar. Pareceu-me mais pesada e, apesar disto mais difícil de controlar em rajada. Mais tarde vim a perceber que isso se deve à cadência de tiro mais elevada do FAL. Mesmo em modo semi-automático tive mais dificuldades a conseguir bons resultados com o FAL, talvez por causa do cansaço e da minha luta contra o peso da arma. Claro que o peso e o sistema de recuperação de gás também tem coisas positivas, nomeadamente a controlar o recuo. Apesar de usar o mesmo cartucho  que o G3, o FAL dá muito menos coice. Apesar de tudo, nem dou pelos 20 tiros que disparei com esta arma.

Chega agora a vez do AK 47, mais concretamente, uma versão curta do AKM. Esta arma dispara o calibre 7,62 x 39 mm, que se pode considerar uma versão reduzida do 7,63 x 51 mm NATO. Apesar disto, o Chris adverte-me que esta arma é uma besta. Hum… Dou por mim a adorar a arma logo que lhe pego. É leve e pequena. Deve ter dimensões muito semelhantes às do G53. A patilha de segurança é típica do Kalashnikov, gigante e pouco prática. Arrasto-a a até á ultima posição e faço fogo semi-automático. Consigo colocar 3 tiros muito próximos uns dos outros, numa zona relativamente limpa do alvo a 25 m.

Com o ego inchado, rodo o seletor de tiro para a posição intermédia, ou seja completamente automático. Disparo a minha primeira rajada controlada e apercebo-me que foi tudo menos controlada. Disparei mais tiros do que queria e espalhei-os por todo o lado, alguns até para fora do alvo. Se me descuidasse ligeiramente, acho que tinha dado tiros no teto, devido à rapidez com que o cano sobe em tiro de rajada. Agarrei melhor a arma com a mão esquerda e, preparei-me para outra rajada, desta vez mais controlada. Por mais que tentasse controlar o movimento ascendente do cano, nunca fui capaz de o fazer completamente. Esta arma assemelha-se às que disparam o calibre 5,56 NATO, mas percebe-se que se trata de um calibre mais potente, muito mais potente. Apesar de ser mais difícil de controlar em rajada, ou talvez até por causa disto, os 25 tiros que disparei com ela deixaram-me um sorriso enorme nos lábios que, ainda hoje, quase duas semanas depois, ainda não se desvaneceu.

Por falar em bestas, a arma que se seguiu foi o BAR. Isto sim é uma besta! Desenhado em 1918, pelo maior génio de sempre da indústria armeira, John Moses Browning, é uma das primeiras metralhadoras ligeiras de sempre. Foi concebido como metralhadora de apoio à infantaria em movimento. Deixem dizer-vos uma coisa desde já. De ligeiro o BAR não tem nada! A melhor forma de o disparar é a partir de um bipé. E foi assim mesmo que eu o disparei.

O Chris colocou-o num bipé, em cima de uma mesa e eu disparei-o sentado num banco. Nunca tinha disparado sentado, com a arma apoiada na mesa e não gostei nada. Não consegui arranjar uma boa posição para controlar o movimento da arma quando disparada em rajada. Sempre que disparava, tinha a sensação que a arma ia cair da mesa e eu ia cair da cadeira, no entanto, nenhuma das coisas aconteceu.

O BAR não é ligeiro, nem pequeno. É uma arma feita para ser manuseada por gigantes. Não sei como é que a dupla criminosa Bonnie and Clyde conseguiam operar armas destas durante os seus assaltos. John Dillinger também era um grande apreciador desta arma. Sei que todos estes criminosos a modificavam, para ficar mais manejável e leve mas, por mais que a modificassem, acho que deveria ser sempre muito difícil de usar. O potente cartucho 30-06 Springfield, uma versão ligeiramente maior do 7,62 NATO, também não facilita a utilização desta arma.

Depois do Chris me ter explicado tudo sobre a arma, inseri-lhe o carregador e coloquei-me em posição. Como qualquer boa metralhadora, esta arma não tem modo semi-automático. Tem, no entanto, dois modos automáticos, o “lento” e o “rápido”. Comecei pelo modo lento. Disparei a minha primeira rajada controlada. Consegui soltar o gatilho antes de cair do banco. Com um ar meio desorientado, empurro a arma para a frente, tento arranjar uma posição mais estável e solto mais uma rajada curta.  Uma vez mais, não sei bem como, consegui largar o gatilho pouco antes de ser tarde demais. Não consigo arranjar uma posição estável para conseguir controlar este potente cartucho. A ergonomia da arma também não me ajuda nada. Se no modo de disparo lento a arma é assim tão difícil de controlar, nem quero saber como será no modo rápido. Depois de ter decidido que não a iria experimentar no modo rápido, disparo mais 2 rajadas até terminar o carregador com capacidade para 20 tiros. Fico mais feliz por já ter terminado as munições do que por ter experimentado a arma. Para piorar as coisas, o americano maluco resolveu voltar a filmar- me e captura todos os meus disparos com o BAR. Foda-se!





Continuámos com as metralhadoras, desta vez uma mais pequena e mais dócil, a M249 SAW (Squad Automatic Weapon), também conhecida como FN Minimi. Esta arma foi concebida com os mesmos objetivos em vista que o BAR, no entanto, a Minimi é concebida quase 60 anos mais tarde e isso nota-se em todos os aspetos. Trata-se de uma metralhadora alimentada por fita ou, em alternativa por carregadores compatíveis com os do M16, de calibre 5,56 x 45 mm NATO, operada a gás, que funciona de obturador aberto. Trata-se de uma arma muito mais leve e manejável que o BAR. Olhando para uma e para outra e sabendo que foram desenhadas com os mesmos objetivos em mente, dá impressão de ser 300 anos mais nova que o BAR.

Apesar de mais leve e muito mais curta que o BAR, o Chris abriu o bipé e colocou-a em cima da mesa para eu disparar. Inseriu a fita de 50 munições, armou-a e colocou-a em segurança. Informou-me que esta arma foi concebida para rajadas relativamente longas, de, pelo menos, 10 tiros. Disse-me que a arma poderia encravar com rajadas curtas. Voltei a sentar-me no banco, desativo a segurança manual, aponto ao alvo e aperto o gatilho por uns momentos. Parecia que o mundo ia acabar. A quantidade de tiros disparados, a somar à chama que saía da boca do cano era uma coisa incrível. A arma pouco se mexeu em cima da mesa, muito fácil de disparar em rajada e de manter os tiros sobre o alvo. Disparo mais umas rajadas, maravilhado com a quantidade de casquilhos e elos metálicos da fita que vejo no ar, pelo canto do meu olho direito. Parecia o Rambo, mas sentadinho e sem a fita vermelha na testa. Gostei mais de disparar a M249 do que a M60 que disparei no Vietname. E se eu gostei da M60!

Por esta altura vi que já só me faltavam disparar duas armas, e as minhas pernas começaram a fraquejar.  Como diz o Abafá Palhinha, “agora é que a porca entorce o rabo”. A primeira das armas mais assustadoras que já disparei foi a Desert Eagle, no calibre .50 A.E. Esta pistola, nos seus diferentes calibres, foi tornada famosa por Hollywood em vários (cerca de 500) filmes de ação. Não há, também, jogo nenhum de computador que se preze que não a inclua no seu portfólio de armas.

Para pôr as coisas em perspetiva, aproveito para dizer que a Desert Eagle funciona usando um sistema de recuperação de gases. Este tipo de sistema é usado, quase exclusivamente, nos fuzis de assalto, metralhadoras e carabinas semi-automáticas de alta potência. O facto de usar um sistema de recuperação de gases permite-lhe disparar cartuchos de alta potência, habitualmente com a designação Magnum, que estão vedados à maioria das pistolas semi-automáticas.

Deixem-me dizer-vos desde já, que esta arma não é adequada à defesa pessoal, seja em que calibre for. Esta besta pesa quase 2 Kg, e tem dimensões gigantescas. Alguns americanos usam-na para caçar, nos estados em que a caça com armas curtas é permitida por lei. A arma que disparei tinha um carril no topo da corrediça que pode ser usado para montar uma mira telescópica ou de ponto vermelho. Na minha opinião pessoal, esta arma não tem qualquer propósito ou utilidade… quer dizer… à exceção de fazer crescer pelos no peito. Apesar de achar que não serve para nada, e estar completamente acagaçado, estava mortinho por experimentá-la.

O Chris também não contribuiu para que eu ficasse mais à vontade. Enquanto me explicava a forma correta de operar a arma, falou-me dos vários vídeos que se encontram no YouTube com pessoas a disparar esta arma e a levar com ela na testa depois de dispararem o 1º tiro. Instruiu-me para esticar bem os braços e trancar bem os cotovelos para que, depois do disparo, com o coice, a arma levante, mas passe por cima da cabeça sem atingir a testa. Aconteça o que acontecer, nunca fletir os cotovelos! Aconselhou-me a ter cuidado para não disparar acidentalmente a arma depois de um tiro, devido ao coice e atingir o teto. Sugeri retirar o carregador, disparando apenas a munição que tinha na câmara e evitando disparos acidentais.





Ainda mais nervoso do que já estava inicialmente. Voltei ao alvo a 15 m com a arma carregada apenas com uma munição. Procuro uma posição o mais estável possível, aponto a arma ao alvo e seguro a arma com toda a (pouca) força que tenho. Aperto o gatilho e absorvo o coice violento que se segue ao disparo. Esta arma, no calibre .50 A.E. que eu tinha acabado de disparar, foi durante algum tempo, a arma curta de produção, mais potente do mundo e isto nota-se no coice.

Bom, vamos lá desmistificar isto do coice antes de avançarmos. Claro que o coice é enorme, não há nada a fazer quanto a isso, mas apesar de toda a violência deste, é perfeitamente gerível para um adulto. Até para um lingrinhas com mãos de fada como eu. Acredito, com toda a convicção, que a Vaselina, com as suas mãozinhas minúsculas, conseguia gerir o recuo desta arma e conseguir resultados decentes com ela. Claro que tinha que disparar várias armas antes, de calibres cada vez maiores. Como dispara regularmente uma arma de calibre .357 SIG, talvez nem sequer fosse preciso fazer grande preparação. Que pena que a ginecologista a tenha proibido de atirar.
Satisfeito com o facto de ter aguentado o coice e de ter colocado o tiro muito próximo do sítio para onde estava a apontar, coloco o carregador com as restantes 6 munições na arma e puxo a corrediça atrás. Sentia a nascerem-me novos pelos no peito. Disparei, pausadamente, os restantes 6 tiros, conseguindo um agrupamento decente, mas longe de excecional. Após cada disparo a arma mexe-se na minhas mãos, como se quisesse libertar-se, obrigando-me a reajustá-la antes do disparo seguinte. Ainda me passou pela cabeça fazer o último disparo segurando a arma apenas com a mão direita, mas reconsiderei e deixei-me de ideias parvas. Não havia necessidade de levar para Portugal o cano da arma impresso na testa.

Com o peito inchado e o ego maior que nunca, entrego a Desert Eagle ao Chris e apercebo-me que apenas faltava o Barrett M82 A1. Sinto novamente as pernas a vacilar. Trata-se de mais uma arma no calibre .50 mas desta vez, no .50 BMG (12,7 x 99 mm), o mesmo que usam as metralhadoras pesadas montadas em veículos ou aviões. E eu ia disparar aquilo encostado ao meu ombro. Onde é que eu tinha a cabeça quando escolhi disparar aquela arma? Já tinha lido que o coice do Barrett M82 é pouco maior que o de uma caçadeira de calibre 12 mas, depois de olhar para o tamanho das munições, isso não me deixava descansado.

Se acho que a Desert Eagle não serve para nada, o Barrett M82, pelo contrário, tem várias aplicações no mundo militar. Trata-se de um fuzil de sniper, muito preciso até aos 1800 m. O Barrett não é uma arma de sniper qualquer. Os atiradores que usam armas neste calibre designam-se por heavy snipers. Trata-se de uma arma anti material e não anti-pessoal. Destina-se a ser usada contra veículos com blindagem ligeira, antenas, radares e outro tipo de material usado pelo inimigo.





Ao contrário do que aconteceu com a Desert Eagle, o Chris assegurou-me que o recuo  não seria problemático. O compensador, na boca do cano foi especialmente desenhado para mitigar o coice. No interior da coronha também se encontra um conjunto de molas e amortecedores que ajudam a absorver o recuo. Depois de me ensinar a operar a arma, indica-me onde está o alvo. Diz que é uma pedra, cor de laranja, que está, acima e para além da barreira, no final da carreira de tiro. Não vejo nada. Ele volta a mostrar-me onde está e diz-me que está a 1000 m de distância. Foda-se, eu vou fazer tiro a 1 Km? Eu!?

Pareceu-me ver uma merda cor-de-laranja na direção que o gajo me indicou e confirmei usando a mira telescópica. Coloquei o segundo par de protetores auriculares por baixo dos  que já tinha e o Chris fez o mesmo. Agora que já tinha alvo, só me faltava mesmo inserir o carregador gigantesco, puxar o manobrador atrás, retirar a segurança manual e disparar. Imediatamente após o disparo, verifico que ainda tinha o ombro no lugar e não havia ossos partidos. Atrevo-me a dizer que o coice é menor que o do BAR que tinha disparado há pouco. Uma maravilha. O Chris diz-me que acertei, mas… acertei no alvo errado. Acertei num alvo mais próximo que usam para armas mais fracas. Diz-me que, se eu quiser posso continuar a disparar para aquele. Claro que não quero! Demorei quase 5 minutos até ver o alvo certo, muito mais longe do que eu esperava. Sentia, literalmente, a minha barba a ficar mais rija.

Volto a aplicar a compensação na mira telescópica que o Chris me tinha dito e disparo novamente. “Hit” grita o Chris. Eu, pela mira não consegui perceber se tinha atingido ou não, mas ele, aparentemente, conseguia. Novo disparo e novo grito “Hit!”. Ah leão! Eu a acertar num alvo a 1 Km de distância! Novo disparo e… “Miss!” Foda-se! Este até eu conseguia ver, pela nuvem de pó, que tinha falhado. Já só faltava um tiro. Não podia falar! Aponto, o mais cuidadosamente possível, espero pela pausa respiratória e puxo lentamente o gatilho. “Hit”, grita o Chris! Mai Nada! Acho que 3 tiros certeiros, em 4, não está nada mau! Claro que a maior parte do mérito vai para o Chris que me ensinou a fazer as compensações na mira. Como não estava vento, não foi necessário compensar em deriva. O retículo da mira tem o formato de uma cruz, tendo uma escala graduada nos 4 raios. Existem traços pequenos que indicam meia unidade e traços maiores que indicam unidade. Tive que disparar com o 3º traço grande abaixo do centro da mira, sobre o alvo, ou seja, o centro da mira estava um bom bocado acima do alvo.

Depois de todos estes disparos e com o maior sorriso que alguma vez consegui exibir, ainda tive direito a uma sessão de fotos com cada uma das armas disparadas. Antes de regressar à clubhouse onde tinha a Vaselina à espera, ainda pus o Chris e o americano maluco de cu para o ar a apanharem casquilhos das munições que eu tinha disparado para levar trazer para casa como recordação. Só espero que me deixem passar isto no aeroporto.

Dizem que quem gosta de carros desportivos e armas está a compensar o facto de ter uma pila pequenina. Partindo do principio que têm razão, saí do Pro Gun Club, naquele dia, com um caralhão de quase 3 metros!





Regresso à clubhouse a primeira coisa que a Vaselina me pergunta foi se tinha sido eu a disparar aqueles tiros que tinham feito uma barulheira enorme. Acho que o meu ar de felicidade lhe respondeu à pergunta. Pedimos sugestões de restaurantes baratos a um funcionário e lá fomos nós, em direção a Boulder City para almoçar e seguir para o Hoover Dam. Encontrámos o restaurante (diner) onde a Vaselina comeu um dos melhores hamburgers da sua vida e eu comi uma club sandwich excelente. Uma vez mais, partiram do principio que queríamos dois baldes de água da torneia com gelo. Que hábito fantástico.

Saímos do diner com o GPS a dar indicações para o Hoover Dam. Há tantas placas a indicar o caminho que desligo o GPS. Passados poucos Km começámos a avistar o lago Mead… quer dizer… uma pequena parte do lago Mead que é um do maiores lagos artificiais do mundo. Começa-se também a ver que o nível das águas está vários metros abaixo do seu máximo. Mais tarde disseram-nos que, a  baixar a esta velocidade, o lago Mead pode secar daqui a menos de 50 anos. Pouco tempo depois avistamos um heliporto que vende visitas guiadas ao lago Mead e à barragem por $39. O preço é bom mas, no dia seguinte temos o tour ao Grand Canyon que passa por aqui. Decidimos não pagar em duplicado.

Desde o momento em que começou a ser construído, o Hoover Dam (Dam - barragem ou represa) tornou-se uma atração turística e, como estamos nos EUA, existe um centro de visitantes, visitas guiadas, parque de estacionamento e outros confortos para os turistas. Como não queríamos fazer a visita guiada, optámos por não sair na saída que correspondia ao centro de visitantes. Seguimos em frente e, quando demos por nós, estávamos em cima da ponte Mike O'Callaghan – Pat Tillman Memorial e tínhamos atravessado para o estado do Arizona. Invertemos a marcha logo que possível e, desta vez, já saímos na saída certa, correspondente ao Visitor Center. Achámos melhor não inventar mais e estacionar no parque pago.

Depois de nos aliviarem de $7 para o parque, passeámos um pouco pelo centro de visitantes, pelo monumento exterior e pelo pontão propriamente dito. Como não podia deixar de ser, é uma obra de engenharia grandiosa, principalmente se considerarmos que foi terminada em 1936, concluída antes do prazo e dentro do orçamento previsto (quase como as obras públicas portuguesas). Esta barragem, que já se chamou Boulder Dam, corta a linha que separa o estado do Nevada do estado do Arizona e tem, inclusive, um relógio a assinalar a hora do Nevada e outro a assinalar a do Arizona. Eu tive uma sensação de dejá vú ao andar pelo pontão porque já por ali tinha andado virtualmente, no jogo Fallout New Vegas e as semelhanças são muitas.





Devido ao calor que se fazia sentir, decidimos meter-nos no carro e rumar a Vegas. Pelo caminho procurámos uma bomba de gasolina e um supermercado. Encontrámos ambos à entrada de Las Vegas. Abastecemos de combustível e mantimentos para os dias restantes e rumámos para o hotel para colocar as coisas no frigorífico e devolver o carro. Achámos melhor passearmos um pouco pela Strip e, para isso, não precisávamos de carro.

Enquanto passeávamos pela Strip, vimos o espetáculo ao ar livre do casino Treasure Island e entrámos no Venetian para jantar. Já tínhamos estado no Venetian em Macau, que achámos lindíssimo mas, que não se podia comparar a este em termos de beleza e extravagância. Jantámos num restantes chinês perto dos ecrãs que dão apoio às apostas desportivas. Nota positiva para a qualidade da comida e para o preço. Depois de jantar assistimos a um espetáculo na praça de S. Marcos, passeámos mais um pouco pelo casino e pela Strip e regressámos ao hotel, onde fodemos como animais com o cio.





Dia 5 – 19-07-2012 – Las Vegas

Acordámos à hora que nos deu na real gana e despachámo-nos à velocidade que nos apeteceu. Era bom não ter compromissos, para variar. Tinha decidido que estava na altura de me fazer um homenzinho e ir disparar o S&W Model 500. Tinha mesmo que tirar isto do sistema. Tinha quase tanto medo de o disparar como de não o disparar.

Desde 2003, ano de início de produção, que este revólver é considerado a arma curta de produção mais poderosa do mundo. Este revólver dispara um cartucho de calibre .500 S&W Magnum, que tem o mesmo diâmetro do .50 A.E que disparei na Desert Eagle, no dia anterior, mas com maior comprimento e, consequentemente, com maior carga de pólvora. Tal como a Desert Eagle, apenas serve para caçar e para por um sorriso na cara de gente parva.

Telefonei para a Discount Firearms, que fica nas traseiras do Trump, a pedir que mandassem o shuttle gratuito para nos vir buscar. Poucos minutos depois, já estávamos a entrar na loja. Preenchi os papéis do costume e esperei, pacientemente, pela minha vez. E esperei. E esperei. E esperei.

O oficial de tiro que me iria acompanhar vinha, periodicamente, dizer-me que estava quase. Dizia-me que estava lá um grande grupo a usar a arma, que tinha muita gente à minha frente. Para me manter ocupado veio mostrar-me as munições que iria disparar. Passado um bocado veio dizer-me que havia uma gralha no folheto e que, iria disparar 20 tiros no lugar dos 5 que estavam no folheto. Apesar de estar extremamente acagaçado e cheio de vontade de fugir dali a cacarejar, disse-lhe que não havia problema e que os disparava todos. Claro que pensava que o gajo estava a gozar e que “só” ia disparar 5 tiros. Aproveitei para ir ao WC enquanto esperava, afinal não me queria mijar todo logo no primeiro tiro.

Ao fim de cerca de 1h de espera e depois de terem dito que a arma estava com problemas, tinha chegado a minha vez. Isto é, se a arma quisesse colaborar. Mudaram a marca das munições para ver se resolviam os problemas que a arma tinha dado com o grupo anterior. As minhas mãos tremiam ao colocar a proteção ocular e auditiva. Tinha uma esperança secreta que a arma se recusasse a disparar. Desta forma saía de lá sem ser completamente derrotado. Não sei como não desatei a correr dali para fora no lugar de entrar na carreira de tiro.

O oficial de tiro diz-me que apenas me vai colocar uma munição de cada vez no tambor, para evitar acidentes. Este prepara-me a arma, fala ao de leve de algumas regras de segurança, passa-me a arma para a mão e diz-me para me fazer à vida. Nem uma dica ou uma palavra de encorajamento. Nada. Agora já não há volta a dar, tenho mesmo que fazer isto. O que me vale é que tenho a Vaselina lá fora a torcer por mim, e pronta para me secar as lágrimas se a coisa corresse mal.




Como temia só conseguir dar um tiro, ia fazer o possível para que este fosse mesmo no centro. O alvo estava a 7m e a arma tinha um cano de 8¾''. Não podia ser assim tão difícil. Agarrei a empunhadura da arma com toda a minha força, tentei acalmar os meus nervos e controlar a respiração. Já tinha disparado a arma em seco e sabia que o gatilho, em acção simples, era leve, quase perfeito. Espremo ligeiramente o gatilho, com a mira da frente mesmo no centro do alvo e solto o tiro.

Os primeiros pensamentos que me assaltaram a cabeça foram – Sobrevivi! Isto não foi assim tão mau!. É verdade, tinha sobrevivido ao meu primeiro tiro com o temido .500 S&W Magnum e estava pronto para os restantes 19. O coice foi bastante superior ao da Desert Eagle, mas, ainda assim, controlável e não doloroso. Enquanto me recompunha ouço o oficial de tiro a dizer “Nice Shot!”. Foi mesmo no centro do alvo. Aparentemente há pessoas que, com medo do coice, falham o alvo completamente. Acho que o gajo estava a pensar que eu era um desses.

Peço-lhe para ser eu a carregar o próximo tiro, mas o gajo não vai na conversa. Diz que são as normas da casa e que tem que as cumprir. Filho da puta! Pelo menos acede a filmar-me e a fotografar. Prepara-me novamente o revólver e faço outro buraco no alvo colado ao que já lá estava. O terceiro tiro junta-se aos outros 2. O gajo volta a elogiar-me e estraga tudo. O 4º tiro vai para o 2º anel do alvo. O 5º tiro ainda fica mais afastado do centro. Foda-se porque é que o gajo falou? Este gajo só faz merda!

Voltei a concentrar-me e a controlar a respiração. Consegui colocar mais um mesmo no centro. E outro. E outro. E outro! Todos os restantes tiros foram colocados no círculo mais pequeno do alvo. Sim, no vermelho! O meu ego tinha atingido novo máximo desde sempre. Apesar de muito satisfeito comigo mesmo achei que não tinha feito nada de especial, devido ao excelente gatilho que o revólver tem, ao tamanho do cano, e à distancia a que estava do alvo. Só quando comecei a ver o meu oficial de tiro a chamar os colegas e a mostrar-lhes o meu alvo é que me comecei a aperceber que a minha performance tinha excedido todas as nossas expectativas. De toda a viagem, foi o único alvo em papel que trouxe para casa. Acho que nunca mais irei atirar tão bem em toda a vida.

Reencontro-me com a Vaselina exibindo o alvo e o maior sorriso que consegui fazer. Agora que já passei este rito de iniciação, já me posso considerar um homenzinho. Saio dali com um bacamarte que vai da Terra até Marte!





Apanhamos o shuttle até ao Luxor, para ir ver as pirâmides de Gizé e a esfinge. Dedicado ao tema do antigo Egito, este casino/hotel é uma desilusão, mas, pelo menos, almoçámos junk food por um preço interessante. Eu nem queria saber do facto do casino não ser bonito, só pensava mesmo no alvo que tinha acabado de fazer!

Ao lado do Luxor, fica o Mandalay Bay, que tem uma praia artificial completamente apinhada de gente. Fomos ver o preço da entrada no Shark Reef mas achámos demasiado caro. Gostamos de tubarões mas não tanto... Passeámos mais um pouco pelo interior deste casino antes de decidirmos atravessar a cidade toda para ir ao Stratosphere para subir à torre com o mesmo nome.

Em primeiro lugar, apanhámos o funicular gratuito que liga o Mandalay Bay ao Luxor e ao Excalibur. Nas fotografias, o Excalibur tem aspeto de castelo de conto de fadas, mas ao vivo, tem um aspeto tão chungoso que decidimos nem sequer entrar.

Atravessámos a passagem superior e entrámos no Tropicana. Este, também tinha mau aspeto, mas não tanto quanto o Excalibur. Queríamos visitar o Mob Museum e, ao passar vimos um anúncio a uma Mob Attraction. Resolvemos investigar para ver se era o que queríamos. Não era. Era apenas uma experiência com personagens vestidas de mafiosos que interagiam com os visitantes. Enquanto caminhávamos para a saída passámos pela piscina e vimos que estava acessível a todos, independentemente do facto de serem hóspedes do hotel ou não. Na maior parte dos hotéis, é necessário mostrar a chave à entrada da piscina.

Atravessámos nova passagem superior para entrarmos no MGM Grand. Este não é dos casinos mais extravagantes, mas é suficientemente bonito para merecer uma visita. Sentámo-nos um pouco à entrada para a piscina a beber uma garrafa de água e a descansar as pernas. A primeira paragem do monorail que atravessa Las Vegas fica junto a este casino. Comprámos o bilhete de $5 por pessoa e lá fomos nós em direção à Stratosphere que fica a 10 minutos a pé da última paragem.

O monorail deve ser das maiores deceções de Las Vegas. Aquilo é tão lento que para medir o tempo que demora de uma estação até à seguinte é necessário um calendário. Foda-se! E já vos disse que tem poucas paragens? Pois é, só tem 7 paragens. Ainda por cima, a distância entre a primeira e a última paragem é relativamente curta. Acho que, para 2 pessoas, a melhor forma de fazer este percurso é de táxi, pois custa o mesmo e é mais conveniente. O que vale é que só penso no alvo que tinha feito de manhã e que faz com que estes pormenores não me afetem.

Depois de sairmos na última paragem, enquanto caminhávamos para o Stratosphere, fizemos uma paragem para um gelado e água. O que nós suámos nestes dias. Apesar de estar calor, era um calor suportável, talvez devido à baixa humidade. Pelo caminho vimos também alguns motéis com mau aspeto, assim daqueles que aparecem nos filmes de ação de baixo orçamento. Vimos também várias daquelas capelas de casamentos em 5 minutos, com um aspeto muita manhoso. Por mais que eu pedisse a Vaselina em casamento, ela não aceitou. Parece que o sonho dela é não ser casada pelo Elvis... The King is alive!





Chegámos finalmente ao Stratosphere e dirigimo-nos imediatamente para a torre, que é a torre de observação mais alta dos EUA. A entrada custa $18 e a subida de elevador demora poucos segundos. Sente-se a variação da pressão atmosférica nos ouvidos, devido à velocidade elevada com que o elevador se desloca. Antes de nos deixarem entrar no elevador tivemos que passar no detetor de metais. Temi que não me deixassem subir com os casquilhos das munições que tinha disparado, mas não lhes ligaram nenhuma. Eu já vos falei do brilharete que tinha feito com a .500 S&W, no melhor alvo de toda a minha vida? Deixem estar. A Vaselina também já não podia com a conversa.

A torre tem 2 pisos de observação. O mais baixo, interior, com bares, lojas, cadeira, bancos e sofás. Deve ser agradável à noite, com as luzes, mas também é muito agradável admirar a vista de 360º ao final da tarde, quando ainda de consegue ter uma linha de vista de vários km e se conseguem ver as várias montanhas que rodeiam a cidade. Depois de bastante tempo a contemplar a paisagem, enquanto descansávamos num sofá, subimos até ao último piso, ao ar livre. É neste piso que se encontram as várias diversões radicais. Ficámos algum tempo a observar as pessoas que pagavam para ser torturadas nestes engenhos demoníacos. Se me pagassem para andar numa merda destas, era capaz de ir, desde que o valor fosse interessante, mas nunca gastaria um cêntimo para me meter numas coisa daquelas. Felizmente que a Vaselina é da mesma opinião.

Quando já estávamos fartos da Stratosphere Tower, apanhámos um táxi e regressámos ao hotel, onde apanhámos o shuttle para o Caesar's Palace. O plano era ir jantar ao Cosmopolitan, a um restaurante que o John Kern me tinha recomendado. Fizemos o percurso a pé, na maior das calmas, apreciando toda a beleza e movimento da Strip. Pelo caminho, assistimos novamente ao espetáculo das fontes do Bellagio. Em frente ao lago do Bellagio, vimos o espetáculo de rua que mais nos impressionou. Um individuo que parecia mesmo levitar. Completamente suspenso no ar, parecendo apenas apoiado por uma cana de bambu. Ficámos algum tempo a assistir, para ver se ele se cansava da posição, e para tentar perceber como fazia, mas não conseguimos. Ficámos tão impressionados que até deixámos alguns dólares de gorjeta. Imaginem uns forretas como nós a dar dinheiro a artistas de rua.





No Cosmopolitan apercebemo-nos de 2 coisas. Nem eu me lembrava o nome do restaurante que o John me tinha recomendado nem havia ali nenhum restaurante para a nossa bolsa. Deambulámos por ali um pouco, apreciando a decoração e o luxo. Um dos casinos de que mais gostei. Quando dali saímos, já completamente esfomeados entrámos no primeiro restaurante que nos pareceu decente com preço acessível. Acabámos a jantar no sítio mais improvável de toda a cidade, o Harley Davidson Café, onde comemos um cachorro e um hamburger gigantescos.

Passeámos um pouco mais pela Strip até que, já exaustos, fizemos sinal a um táxi e fomos para o hotel. O condutor do táxi era simpatiquíssimo e fartou-se falar e fazer sugestões. Ao chegar ao hotel, o taxímetro já não mostrava valor nenhum e o taxista pede-me $17. Eu ainda há pouco mais de um minuto tinha visto o taxímetro a marcar $10,50 tive quase a certeza que tínhamos acabado de ser enganados. O filho da puta ainda teve coragem de me perguntar se queria troco da nota de $20 que lhe tinha dado. Claro que sim! Tinha acabado de nos enganar e ainda queria gorjeta o cabrão.

A minha única consolação, depois de ter sido fodido pelo taxista, é que ía fazer o mesmo à Vaselina, no quarto, antes de dormir.





Dia 6 – 20-07-2012 – Las Vegas – Grand Canyon – Las Vegas

Acordámos cedo, improvisámos o pequeno-almoço e descemos para esperar o transfer para o Grand Canyon. Poucos minutos depois, chega uma carrinha que nos leva pela cidade a recolher outros hóspedes, num processo que nos pareceu demorar uma eternidade. Enquanto estávamos parados junto de um hotel, transferiram-nos para um autocarro que já estava quase cheio e, finalmente, partimos na direção do Boulder City Municipal Airport.

Depois de 30 minutos de viagem chegámos ao aeroporto, onde já se encontravam muitos outros turistas. Dirigimo-nos ao balcão de check-in, onde a funcionária, brasileira, ficou toda satisfeita de poder falar português. Pesou-nos e atribuiu-nos os lugares e mandou-nos à nossa vida, sem sequer olhar para os nossos passaportes. Vimos um vídeo de segurança e aproveitámos para mijar antes de irmos para a zona de embarque.

Ainda mal tínhamos acabado de chegar à zona de embarque, fomos chamados pelo nosso piloto, que se apresentou enquanto juntava os restantes passageiros e nos encaminhava para a porta de saída. Assim está bem, não olham para os passaportes nem nos fazem passar por controlos de segurança. Estes americanos são tão paranoicos com umas coisas e tão relaxados com outras. Quem ganhou foram os passageiros que não foram importunados desnecessariamente.

Na placa, junto ao helicóptero, um fotógrafo da Papillon fotografou-nos com o piloto, para ver se nos arrancava mais uns dólares à saída. O piloto entregou-nos coletes salva-vidas que teríamos que usar sempre que estivéssemos a bordo do helicóptero. Em caso de acidente aéreo sobre o deserto, um colete salva-vidas desempenha um papel fundamental na sobrevivência das vítimas, impedindo-as de se afogarem na areia.

Cumpridas todas as formalidades, entrámos para os lugares que nos tinham sido designados. O helicóptero estava a escaldar. Todas as superfícies metálicas queimavam a pele que lhes tocava. Poucos minutos depois o piloto colocou o helicóptero em funcionamento e descolou. O ar condicionado tornou rapidamente o ambiente a bordo mais agradável. Conseguíamos comunicar a bordo através do sistema de som do helicóptero. Os excelentes headsets da Bose que se encontravam a bordo permitiam-nos ouvir o piloto, as gravações e a música enquanto isolavam completamente o ruído do motor. A bordo seguiam também um casal francês e um casal de lésbicas americanas. Dissemos ao piloto que compreendíamos o que ele dizia e prescindíamos das gravações em português.

A poucos minutos do aeroporto fica o Hoover Dam, que sobrevoámos enquanto o piloto falava sobre o local. Uma coisa interessante que disse foi o facto de Boulder City ter sido criada para alojar os trabalhadores da barragem. Para manter os trabalhadores focados na construção, o álcool foi proibido na cidade até 1969. Ainda hoje o jogo é interdito. Boulder City é uma das únicas duas cidades do estado do Nevada que proíbem o jogo. Não sou jogador nem bêbado profissional mas, este tipo de proibições lembram-me mais um estado comunista do que uma cidade do estado mais liberal do país...





No percurso em direção a Grand Canyon, pelo deserto, sobrevoámos o lago Mead e vimos vários vulcões extintos, um dos quais, o famoso Fortification Hill.  Pouco antes de começarmos a avistar o Canyon, sobrevoámos um antigo aeródromo militar, cuja pista, muito curta, termina à beira de um precipício. Este aeródromo foi usado para treinar os pilotos que iriam descolar de porta-aviões. Foi também aqui que foi filmada a última cena do filme Thelma and Louise.

Não há nada que nos prepare para o choque que sofremos ao começar a aperceber-nos das verdadeiras dimensões deste vale que foi esculpido pelo rio Colorado durante milhares de anos. Eu já sabia que o Grand Canyon teria que ser grande. Até diz no nome e tudo... Mas nunca imaginei que tivesse tamanha imensidão. Por mais fotografias que visse, por mais textos que lesse nada me fez ter uma noção aproximada da enormidade da coisa. Como nada me conseguiu transmitir as dimensões reais deste vale, nem sequer  vou tentar descrevê-lo. Vão lá e levem-me convosco!

O helicóptero entrou no Grand Canyon num ponto próximo do centro de visitantes e do Skywalk. Quando digo próximo quer dizer que os edifícios do centro de visitantes não passavam de um ponto no topo do Canyon. O Grand Canyon tem 446 km de comprimento, mede entre 6 e 29 km de largura e atinge profundidades de 1600 m. À medida que o helicóptero desce e se aproxima do rio, começamos a ter uma maior noção das dimensões. O rio que, lá em cima, parecia um fiozinho de água, parece agora um rio possante e rápido. Vemos helicópteros abaixo de nós que, a julgar pelas dimensões aparentes ainda se encontram a muitos metros de distancia. O mesmo se verifica com helicópteros que voam acima de nós.

A paisagem é de cortar a respiração.  Passados alguns minutos, o piloto avisa-nos que vai aterrar no sítio mais bonito do Canyon, num planalto a cerca de 100 m do rio. Aterra mesmo à beira do abismo. Ah leão!
Ali perto estava um parque de merendas improvisado pela Papillon, com mesas, e bancos, devidamente cobertos por uma rede de camuflagem, que tornava o parque quase invisível do ar. O piloto levou uma geleira com uma lancheira individual para cada passageiro com sandes, snacks, água, refrigerantes e champagne. Quer dizer... espumante ranhoso.

Depois do lanche regressámos ao helicóptero a escaldar, passeámos um pouco mais pelo Canyon e iniciámos o percurso de regresso. Pelo caminho o piloto falou um pouco do helicóptero que estávamos a usar e, que era igual a 90% de todos os helicópteros que voam pelos céus do Grand Canyon, de Boulder City e de Las Vegas. Trata-se do Eurocopter EC130 que foi desenvolvido em estreita colaboração com as empresas de tours para se adequar a este tipo de passeios turísticos. Tem uma grande área vidrada, produz pouco ruído, é confortável e espaçoso e tem ar condicionado. É a forma perfeita para se visitar uma das 7 maravilhas naturais.





Logo que aterrámos em Boulder City, o piloto despede-se e encaminha-nos para o interior do terminal. Fingi que me esqueci de lhe dar gorjeta. Lá dentro a Vaselina não resistiu a comprar a fotografia. Ofereçam-lhe fotografias nossas que ela compra. Fizemos o check-in para o autocarro de regresso ao hotel e esperámos cerca de 15 minutos. Fiz a viagem de autocarro, no banco de trás, encaixado entre 2 casais de chineses enquanto a Vaselina ia refastelada numa poltrona individual. Ainda lhe chamei uns nomes. A ela e aos  filhos-da-puta dos chineses que não me davam espaço nenhum.

Deixámos algumas coisas no quarto e apanhámos o shuttle para o Wynn. Decidimos almoçar, de novo, no restaurante chinês do Venetian que tinha boa qualidade para o preço. Já não conseguíamos mais comer fast food. Depois de almoço, atravessámos a Strip para o Mirage e fomos ver o Secret Garden and Dolphin Habitat. Decidi oferecer o bilhete à Vaselina para a compensar um pouco pelas enormes secas que tinha apanhado nesta viagem.

Este é um espaço relativamente pequeno, dividido em duas áreas distintas. A primeira tem 3 piscinas com golfinhos onde decorrem a intervalos regulares uma espécie de espetáculos. Digo isto porque não são mais que interações entre as tratadoras e os golfinhos. Basicamente os golfinhos fazem o que lhes apetece e recebem umas sardinhas em troca. Como espetáculo é muito fraquinho e está longe de valer o preço da entrada. O que faz valer o preço da entrada é a proximidade entre o público e os golfinhos. Os golfinhos andam muitas vezes à distância de um braço do público, sem nada a separá-los para além de um muro da altura do joelho.

A segunda área tem as jaulas dos gatos. Aqui encontramos leões e várias espécies de tigres, a dormir em jaulas claustrofóbicas. Em alguns casos nós achávamos a jaula demasiado pequena até para alojar cágados. Nunca me passaria pela cabeça colocar ali animais daquele tamanho. Não perdemos muito tempo com esta área. Já com a área dos golfinhos... não havia nada nem ninguém que conseguisse arrancar dali a Vaselina. Tive tempo para dormir uma boa sesta enquanto a Vaselina observava, apaixonada, os golfinhos. Só dali saímos quando as tratadoras começaram a olhar de lado para a Vaselina e ameaçaram chamar a segurança e processá-la por assédio aos bichos.

Regressámos a pé ao hotel para tomar um duche rápido, vestir a nossa roupa de Domingo e seguir para o Wynn onde iríamos ver o espetáculo “Le Rêve”. Deixem dizer-vos desde já que não sou grande apreciador de espetáculos. Só vou assistir a espetáculos se for obrigado a isso e, quase sempre mal disposto. Quando soube quanto é que os bilhetes tinham custado à Vaselina, ainda fiquei mais mal disposto. Como se não bastasse, a organização impõe milhões de restrições aos clientes. Os bilhetes, apesar de previamente pagos têm que ser levantados 2h antes do espetáculo ou a organização não garante os lugares. Sim, perceberam bem, aqueles filhos da puta vendem os bilhetes por uma fortuna, mas não garantem os lugares se os bilhetes não forem levantados com antecedência! Claro que também não há reembolsos! Também não se podem levar máquinas fotográficas ou  telefones para a sala.





Saímos do hotel apenas com a roupa que tínhamos no corpo e com os passaportes que nos obrigaram a levar. Chegados à bilheteira levantámos os bilhetes sem perdas de tempo na fila. Faltava pouco mais de 1h para o início e a maioria dos espetadores ainda não tinha levantado os seus bilhetes. As filas só começaram a crescer quando faltavam uns meros 20 minutos para o início. Já nos tinham enganado! Enquanto esperávamos à porta víamos pessoas com telefones e máquinas fotográficas. Será que não leram os avisos quando compraram os bilhetes? Descobrimos depois que apenas não eram otários como nós. Até a Vaselina já estava a começar a ficar mal disposta.

Quando a sala abriu comprovámos as nossas suspeitas. Ninguém controlava se as pessoas tinham máquinas fotográficas ou telemóveis. Foda-se! Arrrgh! Como se as coisas não tivessem já a correr mal, ainda fico mais mal disposto quando nos sentamos e vejo o espaço exíguo que tenho para as pernas. Será que estas pilhas de excremento não se envergonham do preço exorbitante que cobram aos espetadores sem lhes darem sequer um mínimo de conforto enquanto vêm o espetáculo. Eu apenas tenho a mania que sou grande. Nem quero imaginar o que sentem aqueles americanos verdadeiramente grandes quando se vêm ali encaixados. Será que isto ainda pode correr pior?

O espetáculo começa com mais de 15 minutos de atraso, mas, posso assegurar-vos que é épico! A ação passa-se em torno de uma piscina com 1000000, sim, um milhão de litros de água. Dentro da piscina está um complexo sistema de plataformas e fontes que só por si vale a pena ser visto. A juntar a isto temos danças, coreografias, acrobacias, magia e humor. Para ser perfeito apenas lhe falta umas cenas de topless. Foi o único espetáculo de casino que vi sem ter maminhas ao léu. Apesar de tudo ainda dormi um bom bocado. Saímos de lá muito satisfeitos com o Le Rêve. Nunca pensei gostar tanto. Este é o espetáculo do momento em Las Vegas e faz jus à sua fama. Só é pena que o casino e a organização não estejam à altura.

Jantámos num restaurante do Wynn e passeámos um pouco pelo casino depois da refeição. O Wynn é um dos casinos mais modernos e luxuosos de Las Vegas. É o único casino do mundo com um stand autorizado da Ferrari e Maseratti no seu interior. O comum mortal pode visitar o stand... desde que pague o respetivo bilhete. Na altura em que lá fomos o stand já estava fechado, mas não íamos comprar bilhetes para ver os carros que conseguíamos ver através da montra. Um funcionário disse que vendem 15 Ferrari por mês. Os clientes vêm a Las Vegas e, no meio da euforia e do álcool compram os carros que serão, mais tarde, entregues na morada do cliente. Como é que se justifica, no meio de tanto luxo, que a sala de espetáculos seja tão desconfortável?

Aproveitámos também para por mais umas moedas numa slot machine. Eu voltei a perder $2. A Vaselina, pelo contrário apostou $4 e ganhou $40, o que quer dizer que eu tenho mais sorte no amor e ela mais sorte ao jogo. Antes de regressar ao hotel ainda comprámos postais, selos e bugigangas numas gift shops das proximidades.

Antes de dormir ainda tivemos energia para fazer o amor. Não tive maminhas de fora no casino mais fui compensado no quarto.





Dia 7 – 21-07-2012 – Las Vegas

Acordámos à hora que nos apeteceu e despachámo-nos na maior das calmas. Telefonei para a Guns and Ammo Garage para nos virem buscar ao hotel. Não sei se repararam mas, no dia anterior, não dei um único tiro e já estava a ressacar. No balcão da loja, voltaram a chatear-me por apenas ter uma fotocópia do passaporte. Só depois de lhes dizer que já lá tinha estado há uns dias e que não tinha havido problema é que me deixaram preencher os papéis. Apesar disto tive que deixar o cartão de crédito junto à cópia do passaporte.

Como era cedo, havia pouca gente na loja e não esperei mais de 2 minutos. O oficial de tiro apresentou-se, perguntou-me se queria todas as  munições num único carregador ou em 2 e partimos para a carreira. Como era a última vez que ia disparar, decidi ir em grande. Ia disparar a FN P90. Trata-se de uma arma com um formato estranhíssimo, muito ergonómica, compacta e leve.

Esta arma foi introduzida no mercado em 1990 e foi desenvolvida em conjunto com a FiveSeven. Tal como esta, também utiliza o calibre 5,7 x 28 mm que foi desenvolvido para penetrar coletes balísticos. Nada nesta arma é convencional. O carregador é colocado na parte superior da arma, com as munições perpendiculares ao cano. No momento da alimentação, a munição roda, dentro do carregador antes de ser arrastada para o interior da câmara. Os casquilhos vazios são ejetados por um orifício na parte inferior da coronha, não interferindo de qualquer forma com o atirador. Esta arma foi adotada por inúmeras forças especiais em todo o mundo. Em Portugal esta arma é usada pelo GOE que a usa em missões de proteção pessoal em território nacional e estrangeiro. Nos EUA, o serviço secreto substituiu a UZI pela P90. Muitos, senão todos os agentes que se vêm a proteger o presidente, têm uma P90 debaixo do casado, pronta a utilizar em caso de necessidade.

A arma tem um seletor de tiro com 3 posições: Segurança, Semi-automático, e Automático. Na posição de automático, o gatilho funciona como o do Steyr AUG, premido até meio dispara tiro a tiro, premido até ao final dispara uma rajada. Depois do oficial de tiro me explicar como funcionava a arma e de ma preparar, coloquei-me em posição, selecionei o modo automático e disparei 4 ou 5 tiros para o centro do alvo que devia estar a 7 ou 10 m. Como não podia deixar de ser, a precisão foi muito alta. A mira EOTech, de ponto vermelho também ajudou. Sem grande esperança, pedi ao oficial de tiro para me filmar, coisa que ele fez sem pestanejar.

A arma estava a ser tudo o que eu esperava no modo semi-automático. Disparei uma rajada curta e foi o choque. Disparei mais uma rajada curta para confirmar e, ainda fiquei mais surpreendido. Decidi disparar uma rajada um pouco mais longa e esvazio o carregador. A minha alma está parva! A arma quase que não se mexe durante o tiro de rajada. O cano praticamente não sobe, permitindo uma precisão absolutamente notável. Peço para ser eu a recarregar, retiro o carregador vazio, coloco o novo com mais 25 munições e puxo o manobrador atrás. Disparo os restantes 25 tiros em rajadas curtas apreciando o modo de funcionamento da arma e a sua precisão em rajada. No final olho para o alvo e vejo que os tiros ficaram todos agrupados na zona central. Aquele alvo deixar-me-ia orgulhoso se tivesse sido feito tiro a tiro. Em rajada deixou-me em êxtase.

À saída, enquanto esperávamos pelo shuttle aproveitei para comprar um cinto tático da marca 5/11. Pedimos ao Dave para nos levar ao museu da máfia que ficava na baixa, bem afastado da Strip, perto da Freemont Street.




Deixem-me desde já dizer-vos que adorámos o museu da máfia, não só pelo tema, mas também pela forma como é gerido e como o conteúdo é mostrado aos visitantes, podendo estes interagir com muitas das coisas em exposição. Na bilheteira dão-nos umas pulseiras de papel que nos permitem entrar e sair do museu tantas vezes quantas quisermos durante um dia. Aproveitámos isto para ir almoçar num restaurante ali perto.

A visita começa pelo terceiro piso, seguindo depois para os 2 pisos abaixo. A primeira sala do museu recria uma sala de identificação de detidos, numa prisão. Somos fotografados contra uma parede com marcações de altura segurando uma placa com o nosso número de prisioneiro. Gostámos particularmente do facto de não nos terem tentado vender fotografias tiradas por um fotografo do museu. As fotografias são tiradas com a nossa própria máquina por um funcionário vestido a rigor. O funcionário é de nacionalidade inglesa e fica satisfeito por encontrar europeus por ali. Diz que gosta muito do Benfica, do Eusébio e do Ronaldo.

As restantes salas desde piso alternam entre salas de exposição tradicionais, salas interativas e salas de projeção com bancos para os visitantes descansarem as pernas. Muito bem! Que maravilha de museu! Já que o principal motivo desta viagem é bélico, destaco um simulador de sub-metralhadora Thomson com um alvo onde se pode ver o impacto dos nosso tiros virtuais.

Saímos para almoço num restaurante ali perto onde comi um delicioso bife de vaca. Adivinhem o que a Vaselina comeu. Claro, um hamburger! Não sei como ela não se farta... Depois de almoço regressámos ao museu para visitar os restantes 2 pisos. O edifício que aloja o museu foi, em tempos, um tribunal, onde decorreram inúmeros julgamentos de mafiosos. A primeira sala que visitámos no 2º piso foi a sala de audiências, onde vimos uma encenação em vídeo de uma audiência. Neste piso podemos  utilizar uma mesa interativa para percebermos as ligações entre as várias famílias de mafiosos.

No piso térreo, uma das atrações é um simulador de treino do FBI. Este simulador tem vários cenários com desafios básicos para o utilizador. O que impressiona é o revólver Smith and Wesson que, em tempos, foi uma arma real, adaptado para o simulador, e perfeitamente funcional. Claro que não dá para colocar munições reais no tambor! Mas é a única limitação que tem.

Saímos pela loja do museu onde algumas funcionárias meteram conversa connosco, para saber se tínhamos gostado, de onde vínhamos e para onde íamos. Estavam apenas a ser simpáticas, não nos tentaram impingir nada nem ganhar gorjetas.





Terminada a visita ao museu da máfia, decidimos passar algum tempo na famosíssima Freemont Street. Esta é uma das ruas mais famosas da cidade. Foi aqui que tudo começou. Logo que o sol se começa a por dá-se uma explosão de néon em todos os casinos, clubes de striptease e outros estabelecimentos comerciais. Ao longo desta rua estão inúmeros sinais de néon restaurados pelo museu do néon. Um desses néons é o famoso Vegas Vic, o cowboy retratado em tantos filmes e séries ao longo dos anos e que, ainda se encontra na sua localização original. Descobri mais tarde que o robot, de nome Victor, do jogo Fallout New Vegas foi inspirado no Vegas Vic. Lamentavelmente não vimos este sinal ligado. Não chegámos a perceber se estava avariado ou se saímos de lá demasiado cedo.

Por todo o lado se vêm Elvis, figuras de BD, sósias dos KISS e todo o tipo de gente maluca, devidamente alcoolizada. Parece que entrámos na 5ª dimensão. É a puta da loucura! Existe um sistema de cabos que cobre cerca de metade da rua permitindo aos mais aventureiros deslizar suspensos por cima de uma parte da rua. Comemos um gelado gigante, sentados numa esplanada a absorver o ambiente.

De repente todos os néons e luzes exteriores se apagam, dando início ao primeiro de vários shows do Freemont Street Experience. Trata-se de um espetáculo de imagem e som num ecrã de led que cobre a Freemont Street. Este ecrã exterior, tem 27 m de largura e 460 m de comprimento, o que o coloca entre os maiores do mundo. Toda a rua para e fica olhar para o teto enquanto dura o espetáculo.





Passeámos um pouco mais pela rua, observámos as bailarinas sensuais que dançam em cima de um balcão, no topo da rua, para atrair clientes. Entrámos em alguns casinos, todos com ar chungoso para gastar as moedas que tínhamos na carteira. Quando já estávamos cansados, apanhámos um táxi e regressámos ao hotel.

Já sei o que vão perguntar a seguir. Então e as gajas? Ui. Se as havia! E das boas! Andavam em bando, todas impecavelmente vestidas, maquilhadas e decotadas. Era uma vista de cortar a respiração. Não só aqui como por toda a cidade. Andavam vestidas para dar mais nas vistas que as luzes dos hotéis e casinos. O Jean Marie diz que foi aqui que viu as gajas mais giras que alguma vez viu em toda a sua longa vida. Pessoalmente gostei mais das russas, são mais elegantes, sofisticadas e bonitas. Estas parecem ter saído de um catálogo de moda ou de um filme para adolescentes. Não me interpretem mal, vimos aqui gajas lindíssimas e em quantidades nunca vistas noutro lugar, apenas já vimos melhor em S. Petersburgo.

No quarto ainda verificámos, novamente, que o check-in on-line já tinha sido feito automaticamente e que, para variar, tínhamos ficado separados nos 2 voos. A Vaselina ainda conseguiu alterar os nossos lugares no 1º voo, mas não conseguiu fazer nada em relação ao segundo. Espero nunca mais voar com estes filhos da puta da US Airways. São tão maus ou piores que a Ryanair.

Aproveitámos algum do pão que ainda nos restava para fazer sandes para comer a bordo do 1º voo. Desta vez já não nos iam vender refeições de merda a preços obscenos.

Ainda conseguimos dar uma rapidinha antes de dormir.





Dia 8 – 22-07-2012 – Las Vegas – Philadelphia – Lisboa

Acordámos cedo para empurrar toda a roupa suja para dentro das malas enquanto lutávamos para as fechar. Fizemos check-out depois de mais um pequeno-almoço improvisado. Até mudei de cor quando me mostraram a conta onde estavam as refeições que tínhamos feito no hotel e os valores diários que cobravam pelos serviços. Uma espécie de gorjeta forçada. Com as mãos a tremer, à beira de um ataque cardíaco estendi o cartão de crédito enquanto me tentava abstrair da dor.

Sentámo-nos num banco, no exterior, à espera do transfer que nunca mais chegava. Fui chatear a concierge pedindo-lhe para ligar para a empresa que operava o transfer. Respondeu-nos que tinha demorado um pouco mais a recolher uns passageiros no Wynn, mas que já estava a caminho. Recolheu-nos passados poucos minutos e partimos em direção ao aeroporto.

A US Airways é tão má que nem sequer tem pessoas a fazer o check-in ou a imprimir os cartões de embarque. Depois de esperarmos algum tempo na fila, usamos uma máquina para a impressão dos nossos cartões de embarque. A impressão dos cartões da Vaselina corre na perfeição. Ao colocar o meu passaporte na máquina, esta não me acha. Tentámos mais algumas vezes até chamarmos um funcionário que sugeriu escrever o nome no lugar de pôr o passaporte no leitor. Pelo nome a máquina já me encontrou. Isto deve-se ao facto de o meu passaporte ainda não ser eletrónico enquanto que o da Vaselina já é. Regressámos à fila para despachar as bagagens.





No balcão das bagagens tivemos uma surpresa agradável. Não tínhamos que levantar as bagagens em Philadelphia, estas seriam despachadas diretamente para Lisboa. Seguimos para os controlos de segurança, onde mal olharam para os nossos passaportes. A má notícia veio a seguir. Tínhamos que passar no scanner corporal. Se para mim, isso não representava nada de especial, para a Vaselina, grávida, a coisa já complicava. A Vaselina explicou a situação a uma funcionária que a deixou passar pelo detetor de metais e a apalpou em seguida. Eu tive que passar pelo scanner. Quando saio da máquina, um funcionário aponta-me para as calças e pergunta-me o que tenho no bolso esquerdo. Pensei logo que se estava a referir ao tamanho do meu pénis, muito aumentado por todos os tiros que disparei nos dias anteriores. Descobri que afinal não era isso, tinha umas pastilhas no bolso que foram detetadas pelo scanner.

Esperámos quase 2h na sala de embarque até nos deixarem entrar para o avião. A Vaselina aproveitou para percorrer metade do aeroporto para pôr os postais no correio. Eu aproveitei para fotografar os viciados a gastar os últimos dólares nas slot machines, para admirar a vista sobre a cidade e para escrever este relato. O aeroporto fica quase dentro da cidade e oferece uma vista interessante sobre os hotéis mais altos. Mal entrei no avião ouvi, pela primeira vez, falar português de Portugal. Foda-se! Não tinha saudades nenhumas!

O voo a bordo do Airbus A321 decorreu sem sobressaltos. Quero salientar a vista deslumbrante sobre o Hoover Dam, o Grand Canyon e o deserto do Nevada que se tem do avião. Felizmente tinha um lugar à janela. A vista que se tem durante a primeira hora de voo é imperdível! Todos os velhinhos pensionistas que compunham a tripulação conseguiram sobreviver a mais este voo. Se somássemos a idade de todos os tripulantes, deveria dar um número acima de 1000. Será que ninguém diz à US Airways que aquelas pessoas deviam estar em repouso, num lar de 3ª idade e não a trabalhar a bordo de um avião?





Chegados a Philadelphia nova surpresa agradável. Não tínhamos mais controlos, nem de passaportes nem de imigração. Parece que os americanos só se preocupam connosco à entrada. À saída não nos ligam nenhuma. Ainda bem que assim foi porque só tínhamos 1h até ao voo seguinte e não teríamos tempo para perder em controlos.

Neste voo conseguimos trocar de lugares com uma americana muito simpática e viajámos juntos. Como o voo não ia cheio, a Vaselina aproveitou o lugar vazio ao seu lado para dormir como uma suína. Eu, pelo contrário, não consegui pregar olho. Deve ter sido o primeiro voo que fiz sem dormir. Aproveitei para dar um bom avanço a este relato. Tinha que despejar toda a informação de que me lembrava antes que o Alzeimer se apoderasse da minha memória.

Em Portugal, ficámos mais de 30 minutos na fila para controlo de passaportes. Recolhemos as malas e metemo-nos na fila para os táxis. Depois de outra meia hora, uma besta que se auto-intitula de taxista levou-nos a casa.

Aqui termina a mais épica viagem que alguma vez fiz e a maior aventura que vivi até este momento. Só é pena que a Vaselina não tenha achado o mesmo nem tenha podido partilhar comigo a componente bélica. Pelo menos é por uma boa razão. Suspeito que a maior aventura da minha vida ainda esteja para começar, lá para Janeiro, com o nascimento do(a) nosso(a) filho(a), mas isso é outra história...







The end.


E lembrem-se, não se deixem apanhar.