segunda-feira, 14 de maio de 2012

Laos


Factos:

República Popular Democrática do Lao

Capital: Vientiane (Viangchan)

Língua Oficial: Lao

Presidente (2012): Tenente General Choummali Saignason

População: 6 586 266 (2012)

Moeda: Kip (LAK)

Fuso Horário: UTC +7h.

Eletricidade: 220V, 50Hz.







Independência: 19-07-1949 (de França)

Esperança média de vida: 62,7 anos

Alfabetização: 73%

Quando ir: Entre Novembro e Fevereiro, quando chove menos e ainda não está demasiado calor.

Clima: Tropical

Perigos e Chatices: O Laos é uma pasmaceira. É conhecido como o Alentejo da Ásia. O maior perigo aqui é morrer de tédio. Dito isto devem-se ter todos os cuidados que se teria ao andar por qualquer país europeu. Anda existem bastantes minas e bombas por deflagrar desde a guerra do Vietname. Devido a isto não é aconselhado andar por zonas não trilhadas.


Esta viagem começou apenas como uma extensão da viagem à Tailândia e terminou como uma mera extensão da viagem principal. O que nos motivou a ir ao Laos foi o rio Mekong que desempenhou e ainda hoje desempenha uma papel importantíssimo para as populações do Laos, Myanmar, China, Tailândia, Camboja e Vietname. O cruzeiro que fizemos pelo Mekong foi o ponto alto da nossa estadia no Laos. Outra coisa que me motivou a vir ao Laos foi o papel que este desempenhou na guerra do Vietname. Vim a descobrir que Luang Prabang não é o melhor local para saber mais sobre esta parte da história do país.





Este relato é a continuação do relato da viagem à Tailândia que pode ser encontrado aqui.


Dia 2 - 14-05-2012 - Bangkok - Luang Prabang

Desembarcamos do avião diretamente para a pista e percorremos a pé os poucos metros que nos separavam do edifício principal do aeroporto. Apesar de se tratar de um aeroporto internacional, o edifício é minúsculo e anedótico. Entregamos os formulários para obtermos o visto, a fotografia tipo passe e fomos para uma segunda fila onde se paga o visto de admissão. O preço do visto varia consoante a nacionalidade dos passageiros. Existe uma tabela enorme com os preços das varias nacionalidades. Ainda gostaria que me explicassem qual o critério para os diferentes valores? Será que é pelo número de bombas que largaram sobre o pais? Neste caso porque é os portugueses pagam o mesmo que os americanos? E porque é que os Canadianos pagam ainda mais? Tantas perguntas e nenhuma resposta.

Depois de paga a exorbitância de 35$ por pessoa passámos para a última fila, a de controlo dos passaportes. Apesar de sermos apenas 7 passageiros, tudo isto demorou o seu tempo. As coisas passam-se em câmara lenta neste país. O Laos é conhecido entre os seus pares como o Alentejo da Ásia. O verso do impressos oficiais está repleto de publicidade e na própria sala da alfândega existem cartazes com publicidade a restaurantes baratos na cidade. Eu já tinha dito que este aeroporto era uma anedota?



O nosso guia, o Fhan já estava a nossa espera na sala das chegadas. Apresentou-se e conduziu-nos ao carro onde nos apresentou o motorista. Fhan quer dizer engraçado em Lao e o guia tem a mania que é engraçado, tentando, sem sucesso fazer jus ao seu nome. Demorámos cerca de 15 minutos para chegar ao hotel Sala Prabang que é composto por um conjunto de casas de estilo colonial, uma das quais já foi residência de um antigo primeiro ministro. Depois de preenchido um formulário interminável com questões que já tinha acabado de responder duas vezes nos papéis para o visto e para a imigração lá nos deram a má noticia... Para subir para os quartos tínhamos que tirar os sapatos. Foda-se! Os sapatos? Mas eu não estou a pagar para ficar aqui hospedado? Porque carga de água não posso levar os meus sapatos? Depois de fazer má cara lá os tirei, debaixo do olhar gozão da Vaselina e dos olhares apreensivos do pessoal. O quarto é espartano, mas bonito, típico e com soluções inteligentes. O facto de oferecer Internet de graça quase que me fez esquecer o facto de ter que andar descalço.

O guia deu-nos uma hora e meia para nos instalarmos e almoçarmos num restaurante do outro lado da rua. Aqui reencontrámos a boa velha noodle soup que tanto apreciamos no Vietname. Pagamos em Bahts da Tailândia porque não tínhamos cambiado Kips (LAK). Em Luang Prabang toda a gente aceita Bahts, Dólares e Euros. Kips só os aceitam porque são a moeda oficial, mas todos preferirem divisas estrangeiras fortes. O guia veio buscar-nos de carrinha para visitarmos o antigo palácio real que ficava a cerca de 100 m do hotel.  Ainda bem que fomos de carrinha.




O palácio real foi construído em 1904 num misto de arquitetura francesa e típica do Laos. É um edifício de um único andar, e tetos altos, mas pequeno e simples quando comparado com um palácio real Europeu. Se julgarmos pela quantidade de regras que existem para o visitar, trata-se da mais magnifica obra jamais construída pela humanidade. Para variar, temos que tirar os sapatos, temos que deixar todos os pertences numa caixa forte, incluindo os óculos de sol, temos que ir vestidos com decoro, só falta temos que acender uma vela antes de entrar e entrarmos de joelhos. Posto isto, apenas retivemos o facto de não valer a pena tanto trabalho para visitar um paláciozeco que nem sequer é antigo.

De seguida visitamos o monte Phu Si, que fica do lado oposto da rua à entrada do palácio. Ainda pensamos que íamos de carrinha, mas o guia achou que conseguíamos fazer o percurso a pé. O guia alertou-nos para o facto de alguns turistas confundirem o nome Phu Si com Pussy, coisa que nos ajudou a subir com outro animo. É muito mais fácil subir 230 degraus sob um calor abrasador, sabendo que se está a subir ao monte das conas. Nunca subiria tantos degraus para ver umas imagens do Buda e umas vistas da cidade encobertas pela vegetação. No topo do monte, descobrimos que só lá havia mesmo as imagens do Buda e que iríamos descer por outro lado, um número ainda maior de degraus, 329.

Apesar de continuarmos a suar em bica, a descida foi muito mais fácil que a subida. Passámos por um templo, onde vimos alguns monges novos nas suas lides e um monge velho, gordo a fumar um cigarro enquanto descansava de não fazer nada.





O nosso ponto de paragem seguinte foi o Wat (templo) Xieng Thong. O nosso guia foi aqui monge durante 8 anos. Disse-nos que muito poucas pessoas aguentam a vida de monge toda a vida, pois existem muitas regras e proibições. No caso dele, a principal razão que o fez sair foi aquilo que dá o nome ao monte que acabámos de visitar. Parece-me uma razão muito válida. Podemos entrar em alguns do edifícios do templo, mas optámos por não o fazer para não nos descalçarmos. Eu já disse que detesto este hábito de andar descalço?

Nas traseiras do templo, outro lado da estrada, estavam uns locais a jogar petanca. Este jogo, introduzido pelos franceses quando colonizaram o Laos é, ainda hoje, muito popular. Observámos o jogo enquanto o guia nos explicava as regras e nos dizia o quão grande jogador ele é.




Apesar de já nos terem escorrido vários litros de suor pelo corpo, ainda arranjamos energia para visitar um ultimo templo, o Wat Suwannaphumaham, que é o templo mais antigo da cidade e um dos mais antigos do país. À semelhança do anterior, não tira sapatinho não põe o cuzinho no interior dos edifícios. Foda-se! Em ambos espreitamos pelas portas e não achámos que valessem o esforço de tirar os sapatos.

No caminho para o hotel, o guia ainda nos indicou alguns bons restaurantes para jantarmos. Antes de jantar aproveitamos para tomar um duche refrescante (mas com água quente) e dormitar um pouco. Jantámos num dos restaurantes de comida típica que o guia tinha sugerido.  Quando entramos estava completamente vazio, mas quando saímos estava quase cheio. A comida era bastante boa e o preço aceitável se bem que não tão baixo quanto o do restaurante onde almoçamos. Passeamos um pouco pelo Night Market que tem artesanato local e alguns produtos Made in China.

Depois do mercado noturno, novo duche para refrescar e sexo, muito sexo.




Dia 3 - 15-05-2012 - Luang Prabang

Acordámos, de novo, às 04:30h pois a Vaselina queria ver a procissão diária dos monges oriundos dos vários templos a recolher as dádivas da população. Tomámos um banho rápido e lá fomos nós rua a fora para ver as pessoas ajoelhadas nas ruas enquanto colocavam comida nas marmitas dos monges que passavam. É um acontecimento especial, ver uma fila interminável de monges vestidos de cor de açafrão cada um com a sua marmita enquanto recolhe as oferendas da população. Recomendamos!

Regressamos ao hotel ainda muito antes da hora de abertura do pequeno almoço pelo que fomos dormir, um pouco mais, para o quarto. O dia estava encoberto e muito mais fresco que o anterior. Acordámos para um pequeno almoço fraquinho segundo os standards da maioria dos hotéis por onde temos andado e voltámos para dormir um pouco mais enquanto esperávamos pelo guia que nos vinha buscar as 09:00h para um cruzeiro no rio Mekong.



O cruzeiro privado partiu de um cais perto do nosso hotel à hora marcada, num barco típico da região, estreito e comprido, mas com luxos tais como WC, texto de abrir e bancos reclináveis. O tempo foi piorando a medida que subíamos o Mekong. Aos primeiros sinais de vento FORTE o capitão e único tripulante do barco, encostou a uma das margens, num zona com areia e começou a segurar o barco com cordas e amarras à margem. O guia explicou-nos que as condições estavam a piorar e que íamos parar um pouco e jogar pelo seguro.

Poucos minutos depois de termos fechado o teto de abrir do barco e desenrolado as janelas de plástico, abateu-se sobre nós uma tempestade como há muito não víamos. O barco embatia contra a margem arenosa devido aos ventos e ondas que assolavam o Mekong. Apesar do aspeto tosco e frágil do barco, este aguentou com bravura cerca de uma hora desta tortura. Para passar o tempo fomos filmando e recolhendo som para, caso sobrevivêssemos, termos provas do que passámos.

Aproveitei também para ir ao WC, o que se revelou uma aventura, não só pelos solavancos do barco, mas principalmente pelo próprio WC em si. Este não tinha luz, ocupava um espaço exíguo e a sanita tinha ligação direta para o rio. Como uma cereja no cimo de um bolo, não havia autoclismo. Havia um alguidar cheio de água e um tacho de plástico para tirar água do alguidar para a sanita. Felizmente apenas fiz um número um, que é como quem diz, uma real mijadela. Ah, e se estão a pensar em papel higiénico ou lavatório para mãos, podem esquecer. Vimos muitas mais casas de banho destas por toda o Laos e Tailândia e, infelizmente tive que usar algumas delas para o número dois.




Finalmente o capitão, achou que já existiam condições para continuar viagem, apesar da chuva intensa. Seguimos rio acima ainda com todas as janelas fechadas, deixando ver apenas os contornos de outros barcos e aldeias. Devido ao mau tempo a viagem demorou bem mais que as 2h previstas para chegarmos até à gruta de Pak Ou. Esta gruta é conhecida como gruta dos mil Budas apesar de hoje em dia lá existirem muitos mais. As pessoas podem trazer as suas próprias imagens e deixá-las na gruta. O Lonely Planet já nos tinha informado que o ponto alto deste tour era a viagem de barco até à gruta e nós concordamos. A gruta não tem piada nenhuma. Na rocha estão duas marcas de água das cheias, uma de 2008, cerca de 4m acima do nível atual das águas e outra um metro mais alta datada de 1966. Optámos por almoçar num restaurante do outro lado da estrada, digo, do rio, que apesar da altura a que estava das águas também tinha ficado quase completamente submerso em 2008. Estava lá uma fotografia a prová-lo.

Almoçamos frango frito com arroz branco que estava delicioso. Nos restaurantes do Laos e Tailândia, o acompanhamento tem que ser pedido à parte. Claro que o preço tinha que ser um pouco acima do que estávamos habituados em Luang Prabang, mas não foi exorbitante. Regressámos ao barco com todo o cuidado do mundo para não escorregar nos trilhos lamacentos por onde andámos. O barco já se encontrava com as janelas enroladas para cima e descapotável. O bom tempo tinha regressado. Pelo caminho de regresso, fomos vendo como a vida dos locais se desenrola à volta do rio.




Vimos imensa gente a pescar usando o método tradicional com uma pequena rede, muita gente que usa o Mekong como via de transporte e parámos numa aldeia de produtores de Whisky que usa a água do rio para lavar o milho e o centeio que usam para fermentar e destilar. O guia descreveu-nos o método de produção do whisky, que não nos pareceu muito higiénico mas não nos dissuadiu de o experimentar. Trata-se de uma bebida incolor com um sabor parecido ao do whisky. Como tem 50% de álcool, calculo que não haja perigo de nos transmitir alguma doença. Comprámos uma garrafinha em miniatura para a viagem.

A viagem de regresso foi mais rápida pois íamos a favor da corrente. O guia deixou-nos no hotel ainda com bastante tempo para aproveitar. Decidimos atravessar a ponte de bambu para a outra margem do rio Nam Khan, onde lanchámos num bar de estilo oriental, mas gerido por uma ocidental. Voltamos a ser obrigados a tirar os sapatos para entrarmos no bar. Foda-se! O que eu detesto ser forçado a descalçar-me! O que vale é que tinha ido de havaianas.

Com o estômago mais aconchegado, voltámos a descer pelo trilho lamacento até à ponte de bambu. A ponte de bambu é destruída todos os anos na estação das chuvas e reconstruida na estação seca. A travessia não assusta tanto quanto poderia parecer. Trata-se de uma construção relativamente sólida.





No caminho de regresso ao hotel ainda passámos por um outro templo budista onde estava a decorrer uma cerimónia religiosa e pelo hotel Villa Santi gerido por uma filha do último rei do Laos. Este hotel chamava-se hotel Princess, mas o governo comunista proibiu o nome dizendo que não há princesas no Laos devido ao facto de este país ser uma república.

Depois de uma curta paragem no hotel fomos procurar jantar nos restaurantes próximos. Ao vermos o menu num deles, fomos assediados por um empregado para entrar e assim o fizemos. O empregado conduz-nos a uma mesa, dá-nos o menu e deixa-nos a escolher. Passados poucos minutos, chega outro funcionário que diz que é o aniversário dele e o restaurante esta fechado para a sua festa privada, correndo connosco como se corre com 2 cães raivosos. Ainda hoje não acredito na tanga do aniversário, mas eles tem direito de servir quem quiserem. Acabámos por jantar num restaurante humilde na rua principal, onde comi um bom bife de búfalo.

Regressamos ao hotel para acasalar como cães raivosos e dormir como porcos.





Dia 4 - 16-05-2012 - Luang Prabang - Chiang Mai

Desta vez acordámos tarde pois o guia só nos iria buscar às 10:00h, fomos os últimos a tomar o pequeno almoço e ainda tivemos tempo para navegar um pouco na Internet gratuita do hotel. Antes de nos conduzir ao aeroporto, o guia ainda nos mostrou um centro etnográfico, onde nos falou por alto das varias tribos e minorias que habitam no Laos. Passámos no posto de correios para enviar os postais para a família e amigos e, por ultimo visitámos a aldeia de Xang Khong, onde se produz o papel artesanal, extraído da árvore da amoreira, que é usado para fazer os mais variados artigos. Observámos o processo de fabrico e saímos pela loja onde compramos um candeeiro.

No aeroporto, o guia "ajudou-nos" com o check-in e despediu-se. O controlo de passaportes foi rigoroso, mas a segurança foi muito relaxada, tendo eu passado com líquidos na bagagem de mão e com o iPad dentro da mochila. Tal como o voo de chegada, o voo de partida, na Laos Airlines partiu antes da hora. Uma vez mais se tratou de um avião turbo hélice, que se comportou de forma impecável na viagem. A tripulação, pelo contrário operava pelo modelo de bandalheira total. Pouco tempo depois de nos informar que tínhamos que desligar os equipamentos eletrónicos e fechar as bandejas dos bancos, lembraram-se que ainda tínhamos que preencher os cartões de imigração tailandeses, pelos que os distribuíram e nos deixaram preenche-los até ao momento da aterragem, com as bandejas dos bancos abertas para podermos escrever. Segurança acima de tudo...



Desta forma termina a nossa micro viagem ao Laos. Não sei se devido ao pouco tempo passado por lá ou ao facto de ser uma pasmaceira dos diabos, não nos apaixonámos pelo país. Talvez devêssemos ter la passado mais uns dias, visitado a capital e mais um pouco do interior. As paisagens lindíssimas que vimos, levam-nos a acreditar que teria valido a pena passar mais tempo no país.


A nossa viagem continua, de novo, na Tailândia, em Chiang Mai.




The end.


E lembrem-se, não se deixem apanhar.