sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Crítica à Federação Portuguesa de Tiro - FPT








Publico este artigo com algum pesar pois prefiro escrever textos elogiosos e evito publicar conteúdo negativo, potencialmente prejudicial para todos, no entanto, sinto a necessidade de partilhar, com quem quiser ler estas linhas, as razões pelas quais acho que a Federação Portuguesa de Tiro, presta um mau serviço, aos seus associados ou filiados. Pessoalmente sinto-me extremamente desiludido com a FPT e não tenho muitas coisas positivas para dizer acerca da federação.

Deixo, desde já, a ressalva de que sou apenas um grão de areia no deserto, sem qualquer conhecimento dos processos internos da FPT nem  da sua direção. Este texto resulta das minhas próprias experiências pessoais bem como de conversas com outros atletas descontentes. Peço, antecipadamente, desculpa à FPT por eventuais injustiças ou incorreções, resultantes da minha ignorância. Não pretendo, de forma alguma, denegrir a imagem da FPT ou da sua direção, considero que tenho o direito de partilhar a minha opinião, ainda que esta seja desfavorável.

Feita a introdução, vamos às razões do descontentamento. Estas, estão ordenadas de forma decrescente, quanto à sua gravidade:
  • Acesso à modalidade IPSC - O acesso a esta modalidade está acessível apenas aos atletas titulares da licença federativa C, após curso de formação específico para esta modalidade e aprovação em exames teórico e prático. Não tenho objeções relativas aos cursos e exames, mas não posso concordar com a necessidade da licença federativa C, pelo menos nos moldes com que é obtida hoje em dia. Um atleta que se inscreva hoje na FPT com o intuito de iniciar a prática desta modalidade, tem que fazer uma travessia do deserto, longa e penosa. Como se pode exigir a alguém que pode não ter vocação ou apetência para o tiro de precisão, que atinja pontuações mínimas em 2 provas por ano durante 4 anos (2 anos até à licença federativa B e outros 2 para conseguir a C)? Em que é que esta exigência serve o atleta ou beneficia o desporto ou a segurança. Se o atirador após fazer a formação, conseguir passar nos exames teóricos e práticos, não vejo nenhuma razão para que não possa ter acesso imediato a esta modalidade.






  • Manutenção da habilitação para a prática de tiro dinâmico - A obrigatoriedade de fazer 2 provas com 6 ou mais pistas cada é, na minha opinião, exagerada e difícil de sustentar a longo prazo, por uma questão de custos, tanto ao nível da prova em si, como das munições e deslocações. Acho que uma prova por ano é mais do que suficiente para os atletas manterem a proficiência, baixando significativamente os custos de manutenção.
  • IPSC com armas de percussão anelar - No presente a FPT não contempla provas de IPSC com armas de percussão anelar. Na minha opinião, esta  modalidade seria bastante benéfica pois iria permitir o acesso ao tiro dinâmico sem os custos elevados inerentes das armas e munições de percussão central. Acho urgente a realização de provas de tiro dinâmico para armas de percussão anelar.
  • IPSC Action Air - A adoção desta modalidade também seria benéfica para atrair novos atletas que já são praticantes de airsoft e que até já participam em eventos com características semelhantes, mas que não podem suportar os custos nem querem ter os encargos burocráticos necessários para as modalidades com armas de fogo. Não percebo a resistência que a FPT apresenta à adoção desta modalidade.
  • Steel Challenge - Este tipo de provas, de carácter mais dinâmico mas sem a complexidade do IPSC poderiam ser a solução perfeita para quem não gosta das provas de precisão do tipo ISSF. Na minha opinião, estas deveriam ser adotadas pela FPT quanto antes, tanto na variante de percussão central como anelar.






  • Prazos e pontos para a obtenção das licenças B e C - Este é outro tema do qual discordo em absoluto. Não percebo qual a necessidade de um atleta ter que esperar 2 anos para conseguir a licença federativa B e outros 2 para a C com a obrigatoriedade acrescida de conseguir pontuações mínimas em, pelo menos uma, das 2 provas obrigatórias por ano. Este critério é altamente arbitrário e discriminatório. Porque razão é negado o acesso a determinados tipos de prova a atiradores medianos ou fracos? Um atirador fraco numa modalidade pode ser forte noutra mas, se lhe negarmos o acesso, nunca poderá prová-lo. O argumento da segurança, quanto a mim, não é válido pois os novos atletas têm que passar num exame teórico e em 2 exames práticos para obterem as licenças federativas A e D e esses exames comprovam que, entre outras coisas, sabem manusear armas com segurança. Conheço alguns atletas que obtêm pontuações fracas mas que são extremamente seguros no manuseio das armas. Gostaria que, no lugar do atual sistema, os novos atletas tivessem 1 ano com participação obrigatória em 4 provas, sem pontuação mínima, para ganhar experiência e consolidar conhecimentos. O atleta poderia aceder diretamente às licenças federativas B e C no ano seguinte a completar as 4 provas iniciais. Se o atleta não conseguisse completar 4 provas num ano, no ano seguinte teria que completar as restantes, ficando o acesso às licenças federativas B e C reservado para o ano seguinte.
  • Custos dos pedidos à FPT - Considero exagerados ou até mesmo obscenos, os custos dos processos administrativos da FPT. Não me refiro ao preço das provas mas sim aos pedidos de aquisição de armas e componentes de recarga. Como se justificam os 20€ que custam a declaração de aptidão desportiva para a compra de uma arma? Na minha opinião, estes pedidos deviam ter custo zero ou seja, deviam estar incluídas no valor da anuidade que já é bastante alto. Pelo menos uma quantidade pré-estabelecida de tarefas administrativas. Por exemplo, 3 declarações para a compra de armas, 3 para a compra de fulminantes e outras 3 para a compra de pólvora. Os atletas que pedissem mais declarações pagariam um valor simbólico mas nunca os pornográficos 20€ atualmente em vigor.
  • Tempos de resposta aos pedidos da FPT e forma arcaica de interação entre os atletas e a FPT - Em pleno século XXI (21, para os mais distraídos), não se justifica que um pedido para aquisição de armas ou componentes de recarga demore, pelo menos, 2 semanas a chegar ao atleta que o solicitou. Com o atual processo, o atleta faz o pedido ao seu clube ou, diretamente no portal da FPT, paga ao clube, o clube paga à FPT, a FPT envia a declaração, por correio para o clube, e o clube envia por correio para o atleta. Se tudo correr bem, este processo demora pouco mais de 2 semanas. Com a tecnologia atualmente ao dispor, não encontro nenhuma justificação para a necessidade de papel nem da utilização dos correios tradicionais. A FPT podia perfeitamente, enviar por e-mail um ficheiro PDF assinado com certificado digital com a declaração solicitada pelo atleta. Este processo pode, e deve, ser iniciado e terminado no próprio dia. Isto pode parecer insignificante mas, o acumular destes pequenos detalhes ajuda a desmotivar os atletas levando ao desinteresse e abandono de alguns.
  • Tempo para a publicação dos resultados das provas no portal da FPT - As classificações das provas, que normalmente ocorrem no fim-de-semana, apenas são publicadas no site, 2 ou 3 dias após a prova. Este é um claro indicador da falta de consideração que a federação tem pelos seus atletas. Estou a referir-me a provas organizadas pela própria FPT e não às organizadas pelos clubes, que podem ter responsabilidades no atraso. Sei que os resultados são afixados, fisicamente, no local da prova mas, muitos dos atletas vivem longe ou têm agendas ocupadas e não têm disponibilidade para aguardar pela publicação dos resultados em papel. Acho que a FPT tem a responsabilidade de publicar os resultados no seu site, no próprio dia da prova ou, na pior das hipóteses, na manhã do dia útil a seguir à prova. Não acho aceitável, como regra,  prazos mais alargados.






  • Interação direta entre a FPT e os atletas - Há algum tempo, após aguardar, sem sucesso, 2 dias pelos resultados de uma prova em que participei, num dia em que estava particularmente atrevido, cometi a ousadia de solicitar por e-mail o envio dos mesmos. Gostei tanto da resposta que obtive que a vou transcrever aqui, na íntegra: “Exmo. Senhor, Agradecemos que para estes e outros assuntos, entre sempre em contacto com o seu Clube, p.f..”. Por outras palavras, o que este mail quer dizer é - “Não está autorizado a contactar diretamente a FPT sob qualquer pretexto ou justificação”. Gostaria que alguém me explicasse porque é que tenho que contactar o meu clube para pedir a classificação de uma prova organizada diretamente pela FPT, depois de esperar 2 dias pela publicação de resultados. Que tipo de associação se recusa a falar com os seus associados? Pessoalmente até pago quotas e tudo, não tendo quaisquer dívidas. Se a FPT se recusa a falar diretamente com os atletas, também deveria recusar o valor das quotas. Nesse caso, seriam apenas os clubes a associarem-se na FPT, ficando apenas os atletas associados ao seu clube e pagando apenas a quota do clube. Melhor ainda, seria extinguir a FPT. Não sei se fui suficientemente eloquente a exprimir o quanto fiquei ofendido com o mail de resposta da federação.
Agora que já terminei o desabafo, gostaria de poder dizer que já em sinto mais aliviado mas, a verdade é que ainda não. A única forma de alívio seria a mudança, seja ela de atitude, de direção, de federação. Sou filiado na FPT há bem mais de 10 anos e, até agora nunca senti qualquer avanço ou melhoria na relação que esta tem com os atletas ou com o tiro.

Volto uma vez mais a pedir desculpa, antecipadamente pelas minhas palavras, caso tenha escrito algo incorreto ou injusto fruto da minha ignorância. Estou aberto a opiniões diferentes e a chamadas de atenção quanto a potenciais incorreções deste artigo.

Gostava de poder concluir este texto numa nota positiva, com algumas palavras de apreço por trabalho que a FPT tenha desenvolvido para melhorar a minha qualidade de vida enquanto atleta de tiro desportivo e enquanto cidadão detentor de armas mas, a verdade é que não me ocorre nada de positivo para dizer. Nem mesmo na luta contra a proposta para a alteração da lei 42/2006 RJAM a FPT está a ter um papel de relevo. Limita-se à passividade e submissão. Lamentável.

Espero que não tenham gostado deste artigo, eu também não. Para dizer a verdade foi o artigo que menos gostei de escrever e publicar. Espero também que não sintam a necessidade de clicar no botão like nem de o publicar nas vossas redes sociais. Isso poderá querer dizer que não tenho razão e que as coisas até nem estão tão más como creio.

E lembrem-se, não se deixem apanhar.