quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Ensinar crianças a disparar







Olá. Tenho perfeita noção de que este é um tema delicado e, potencialmente polémico, mas, devido à sua importância, acho que deve ser abordado.

A esmagadora maioria dos atiradores que conheço, sejam eles atiradores desportivos, de recreio, caçadores, ou colecionadores, disparou, pela primeira vez, uma arma na sua infância, uns mais cedo, outros mais tarde, mas sempre antes da adolescência.

O quê? Crianças com armas na mão? Devem ter ferido ou morto alguém antes de terem chegado à idade adulta! E hoje serão, certamente, assassinos em série! O drama, a tragédia, o horror!

Felizmente, a maioria dos atiradores que conheço, para além de não serem violentos assassinos em série, são pessoas calmas, moderadas, disciplinadas e respeitadoras das regras de segurança.

Claro que se pode esperar pela idade adulta para se ensinar alguém a disparar mas, desde que a criança revele interesse, maturidade e disciplina suficientes, não vejo nada de errado em ensinar-lhes os fundamentos básicos da segurança e do tiro e deixá-la experimentar.

As crianças têm grande interesse em tudo o que as rodeia e aprendem muito mais rapidamente que os adultos, não oferecendo tanta resistência à  informação que lhes é transmitida e apresentando poucos ou nenhuns maus hábitos ou vícios que possam ter adquirido ao longo da vida.

Estas, são razões mais que suficientes, para que eu considere que se devam ensinar as crianças a disparar desde tenra idade.




Recentemente, tive a oportunidade de ensinar um familiar de 9 anos a disparar, e aproveito para dizer desde já, que a experiência correu muito bem. Apesar de achar que ele tinha maturidade suficiente e estava preparado para aprender há mais de 2 anos, apenas mostrou interesse e vontade de experimentar este ano. Não acho que se deva forçar ou impor estas coisas. Vou chamar-lhe SX.

Este foi o método que segui depois do SX ter mostrado interesse em experimentar, de forma repetida  e continuada ao longo de várias semanas:

  1. Expliquei-lhe que as armas não são brinquedos e que, mesmo a mais fraca das armas de ar comprimido pode provocar ferimentos graves e irreversíveis. É importante referir também que, se forem cumpridas as regras básicas de segurança, se podem utilizar armas de forma segura, e sem riscos para a sua integridade física ou dos que a rodeiam.





  2. Enumerei e expliquei as regras básicas de segurança:
    1. Trata todas as armas como se estivessem carregadas. Nunca faças nada com uma arma descarregada que não fizesses com uma arma carregada.
    2. Nunca apontes uma arma a algo que não estejas disposto a destruir. O cano da arma deve apontar sempre para um local seguro para que, em caso de disparo acidental não se provoquem danos a pessoas, animais ou bens materiais.
    3. Mantém o dedo afastado do gatilho até estares pronto para disparar. Só depois da arma estar apontada ao alvo e com a imagem de miras desejada é que se deve colocar o dedo no gatilho. Em todas as outras situações, o dedo indicador deve estar esticado, ao longo da arma.
    4. Conhece o teu alvo e o que se encontra atrás dele. É fundamental garantir que atrás do alvo ou na sua proximidade, não se encontram pessoas, animais ou objetos que não se pretendam destruir. É também fundamental perceber se o alvo irá fazer parar o projétil ou se este irá continuar a sua trajetória após embater no alvo.
       
  3. Às 4 regras básicas de segurança, achei também importante deixar bem claro que, se a criança encontrar uma arma na sua casa ou na de amigos, não deve, em caso algum, mexer-lhe, mesmo que julgue saber como esta se manuseia em segurança. Deve sempre chamar um adulto em quem confie.
  4. Depois da criança ter decorado e percebido as regras de segurança, tendo-as enunciado várias vezes ao longo de diversos dias, chegou a altura do seu primeiro contato com armas, ainda sem munições, com o objetivo de aferir se a criança é capaz de aplicar as regras que aprendeu, se tem disciplina e auto-controlo ou se faz movimentos bruscos e perigosos.





  5. Agora que a criança provou que está apta a manusear uma arma, chega a altura do seu batismo de tiro. A arma escolhida foi uma carabina de ar comprimido, de mola, monotiro, apoiada em saco de arroz. Achei preferível uma arma longa por ser mais difícil de manusear de forma brusca ou perigosa. O saco de arroz também dificulta os movimentos perigosos e torna a experiência mais agradável por eliminar o fator peso. Utilizei mira telescópica para facilitar a pontaria e tornar a experiência mais agradável. Durante os primeiros disparos estive sempre à distância de um braço da arma e do atirador para que pudesse impedir qualquer movimento perigoso.

  6. Após a primeira experiência, o SX continuou a mostrar interesse pelo que chegou a altura de introduzir os disparos de pé, com carabina monotiro de ar comprimido e com pistola de CO2, de funcionamento semi automático, para simular o funcionamento de uma arma de fogo. Ambas as armas foram usadas com as miras abertas, após uma breve introdução à imagem de miras que se deveria ter com cada uma delas. Quando se efetuam este tipo de disparos, é extremamente importante que o adulto esteja sempre à distância de um braço para que consiga controlar e evitar movimentos perigosos. Depois da criança demonstrar que é capaz de manusear a arma de forma competente, disciplinada e em segurança, pode-se dar-lhe algum espaço. Deixei o SX efetuar todas as operações necessárias ao funcionamento das armas que usou, tal como carregá-las, armá-las e colocá-las em segurança após os disparos.


Tal como já referi anteriormente, a experiência não podia ter corrido melhor! Não existiu uma única situação delicada ou perigosa, não houve disparos acidentais ou negligentes, o SX aplicou facilmente as várias posições de tiro e usou as miras metálicas sem esforço. Depois de feito o balanço final, creio que o mais importante, foi que nos divertimos bastante e ficou a vontade de repetir.

Considero importante destacar que foram usados alvos reativos (latas, garrafas de plástico, e brinquedos estragados), de dimensões generosas e colocados a curta distância para potenciar a diversão e minimizar a frustração.Também não fui muito exigente com as questões mais técnicas, tais com o controlo do gatilho, as posições de tiro ou a respiração. Estas coisas vão evoluindo ao longo do tempo, com o atirador. Dito isto, da 3ª vez que disparou comigo, o SX conseguiu cortar uma carta de jogar a 8,5 m com uma carabina Cometa Fenix 400 em calibre 5,5 mm com mira telescópica da Hawke 4x32 AO, apoiada em saco de arroz.






Também podem ser introduzidos jogos e desafios para potenciar o espírito competitivo e tornar a experiência mais interessante. Volto a referir que, o mais importante é que seja uma experiência segura e divertida. Deixo como exemplo um dos jogos que experimentámos e que se chama “Tiro em comprimento”. Consiste em atirar sobre um objeto com o intuito de o fazer saltar em comprimento a maior distância possível. Este é um jogo em que um atirador inexperiente tem pouca ou nenhuma desvantagem sobre um atirador mais experiente.

Partilho esta experiência, não por ser um perito neste tipo de coisas, mas, pelo contrário, para que, possa obter ajuda e feedback de pessoas mais experientes. Gostaria que me indicassem o que fiz de errado, o que não fiz e deveria ter feito, como posso melhorar a minha metodologia para que, quando chegar a altura de ensinar os meus filhos a disparar, a experiência corra tão bem ou melhor.

Partilhem as vossas experiencias, caso as tenham e indiquem qual a idade que consideram perfeita para se disparar pela primeira vez.





Espero que considerem este tema importante e que tenham gostado da forma como foi abordado. Se gostaram, por favor partilhem-no nas vossas redes sociais e cliquem no botão gosto.

E, lembrem-se, não se deixem apanhar.